Pular para o conteúdo principal

Chico Papagaio e Zé Cachorro (tragedia in due atti)


Ato I - FALL

Seu Chico Papagaio caminhava feliz, pelos altos dos muros, pelos altos telhados, pelas altas calhas, tudo alto, tudo belo de se ver por seus belos e alaranjados olhos de papagaio. Desconhecia sua origem, também, pouco se importava com ela. Ele queria saber de céu azulado, de nuvens brancas, de vento nas penas. Seu Chico era um papagaio feliz.
Mas tinha ambições, entre elas estava o coqueiro, tão alto e esplendoroso, suas ramificações pareciam tocar o véu azul do céu, lá se sentiria entre as nuvens, voando qual fênix, estaria alto, no alto, mais alto do que qualquer momento em sua vida de papagaio de casa, cantante, falante, bicante, de riso fácil, de raiva fácil. Come muito e muito caga. Era um papagaio, era da família e era amado. Ele também gostava daqueles estranhos sujeitos da terra, que riam e gostavam das estranhas palavras que repetia. E ria-se do que repetia aquela fala tão interessante e engraçada.
Ele tinha uma vida feliz. Ao não ser por seu Zé. Ô bicho rabugento e resmungão, toda vez que seu Chico tentava chegar ao Coqueiro lá vinha seu Zé, raivoso, latindo, pulando, não gostando de nada. Seu Chico não gostava nem um pouco daquele cachorro, tinha-lhe medo era verdade, mas ainda assim queria chegar no coqueiro e seu Zé não lhe impediria.
E foi então num dia de sol que seu Chico caminhou para sua terrível morte, com a coragem que sua alma de papagaio possuía ele subiu na palheira, Seu Zé não perdeu tempo e logo acorreu em direção ao coqueiro latindo desvairado. "É hoje que te abocanho". Seu Chico deu um grito, agarrou-se na palheira e subiu, passou para uma mais alta, um vento do norte começou a soprar, ele o sentiu em suas penas, subiu para outra mais alta, e continuou. Os latidos eram apenas vagos sons do chão, de um ser rabugento e chato que não sabia apreciar a beleza azul daquele céu, o brilho incandescente daquele sol, e contrastante frio do vento que soprava, Seu Chico estava nas nuvens, dali, via toda sua vizinhança, e cantou, assobiou, gargalhou, estava feliz e estava subindo.
Em verdade, é uma pena que palmeiras sejam tão frágeis em suas pontas, ou Seu Chico não teria caído para sua triste morte. Foi tão rápido e repentino que Seu Chico Papagaio nem mesmo sentiu a dor do impacto da queda, tudo que percebeu foi o rápido trote de Seu Zé, e então, não era dor ainda, apenas sua asa sendo arrancada de seu corpo por afiados dentes, ele teve a impressão de ter visto um líquido vermelho, “de onde será que jorrava?” ainda pensou antes de sua triste morte. A como é bom estar no alto. E sua alma voou e nunca mais voltou.

Ato II – LA VENDETTA

Seu Zé não gostava de Seu Chico, desde que ele chegara não tivera um único dia de paz, todo santo dia o maldito bicho aparecia em seu muro, falando como os bichos altos, querendo entrar no coqueiro, atrapalhando seu cochilo. Era cachorro valente, protegia sua casa, e no único momento que tinha para descansar o desgraçado do Chico não parava a tagarelice, e fala isso e fala aquilo e fala isso de novo e repete isso e aquilo pra falar aquilo, pra dizer isso que quer dizer isso e ri. Certa vez o desgraçado fora ao ponto de deixar um de seus restos fisiológicos sobre os nobres e limpos pelos de cachorro do seu Zé.

“Eu mato esse bicho” dizia para seu Zé pra seu Lucas da casa da frente.

“Mata não véi, mata papagaio é mó robada”.

Mas não havia jeito, uma hora abocanhava o bicho. E num é que um dia o bicho resolveu mesmo subir no coqueiro, e lá foi o papagaio. Seu Zé, correu, latiu, babou, arreganhou os dentes, proferiu impropérios, tudo para assustar Seu Chico, mas este se manteve impassível, Seu Zé se inflou de ódio, latiu como nunca antes, arranhou as patas na casca da árvore, andou de um lado para o outro em desespero, o maldito papagaio ia conseguir o que queria, e ele, o cachorro ia ficar naquela de bicho otário.

Entretanto parece que a sorte se compadeceu da vontade assassina do belo cachorrinho e a Dona ambição anuviou a cabeça de vento de Seu Chico e o deixou onde ele queria estar, nas nuvens, então veio a dona desilusão com a queda. A dona sorte sorriu, Seu Zé praticamente podia vê-la apontando para o vulto verde caindo.

“Vai meu querido animal. Vinga-te!”

Ele não fez por menos, a dona sorte era exigente, não dava a mão em auxilio duas vezes e lá foi. Abocanhou a asa do papagaio e a arrancou, sentiu o cheiro morno do sangue em suas narinas, como aquele bicho irritante era delicioso, iria devorá-lo todinho e defeca-lo depois para que o senhor fantasma do papagaio aprendesse a nunca mais fazer merda na sua pessoa. Abocanhou o peito do bicho e o arrancou fora, provou as tripas, o coração, o fígado, abocanhou todo. Então seus dentes manchados de sangue pararam.

Seus olhos caninos se arregalaram numa expressão de surpresa, num momento, viu a Dona Morte, a Dona Destino e a Dona Ironia, rindo-se, gargalhando-se dele. Em verdade, todas as malditas donas estavam rindo. Rindo do bicho otário. E lá no céu azul estava o fantasma do papagaio gargalhando para o céu dele.

O oxigênio se foi, ele caiu no chão, rolou, pulou, tentou latir, a boca cheia, cuspiu a carne de papagaio, menos a parte que tão desatentamente engolira. O Bico. A parte que mais odiara no maldito Chico Papagaio, ainda lhe reservara uma leve irritação final.

Bloqueio de traquéia. Fim da respiração. Falha metabólica. Agonia, horror, ridículo, sombra, riso, vingança, ódio, morte.

Vingança, vingança, vingança.

A alma de seu Zé se foi, e não olhou para trás.


Near

Comentários

Gildson Goes disse…
Nota de Esclarecimento....

Essa história é baseada em um fato real, realmente existiu um cachorro e realmente comeu um papagaio e realmente se asfixiou com o bico do papagaio. Vale ainda ressaltar que a dona do cachorro guloso ainda foi reclamar à dona do papagaio o prejuízo que seu falecido passaro fez ao seu cachorro.

Quem me contou esta história, foi a contadora de histórias de seringueiro Elynalia Lima Alves, caso queiram mais esclarecimentos entre em contado aqui mesmo na página de recados, tenho certeza que ela terá prazer em sanar qualquer dúvida que venha a surgir.

Resolvi retirar os elementos humanos da história, assim da um ar de fábula, quanto a cenários e motivações, é tudo liberdade poética.

Atenciosamente,

Near

Postagens mais visitadas deste blog

Songs of Love and Death - Me and That Man

John Porter (esquerda) e Nergal (direita) Pra quem está acostumado a ouvir Nergal pesado e extremo como líder da banda de Death Metal Behemoth certamente achará estranho e inusitado seu novo projeto Me and That Man. Aquele homem do título trata de um artista do folk chamado John Porter. Juntos ambos trazem luz (ou sombras) a um projeto com influencias como Johnny Cash e Leonard Cohen (repare na semelhança com o clássico Songs of Love and Hate).  O resultado de um músico de death metal polonês fazendo música tipicamente americana não poderia ser melhor. Songs of... é possivelmente um dos melhores lançamentos do ano. Ao escutar o disco se tem a impressão uma gravação realizada no sul do Estados Unidos, mais provavelmente em Nashville. Temos country sombrio em My Church is Black, que soa como se Johnny Cash tivesse perdido a fé e se revoltado contra Deus; temos blues em Nightride, Shaman Blues, Magdalene, etc.; temos o garage rock de Better The Devil I Know e da canção títu...

News of the World. (ou Era uma vez em um lugar qualquer)

Ditadura de 70 anos chega ao fim em Lugar Qualquer Cicrano de Souza – Enviado especial à Lugar Qualquer. O clima continua tenso em Lugar Qualquer, o ditador Mão de Ferro teve de fugir na calada da noite junto com sua família para fugir à fúria dos manifestantes. As ruas estão tomadas de populares, os conflitos com o exército são freqüentes, as lojas estão fechadas, os turistas se escondem apavorados nos hotéis ou tentam fugir em massa através dos aeroportos congestionados. Os saques a lojas e bancos ainda continua e não há dia em que não possa ser visto carros incendiado nas ruas e estradas da grande capital de Lugar Qualquer, Cidade Grande. Os manifestantes exigem a prisão do ex-ditador Mão de Ferro, porém até o momento não se sabe onde ele e sua família podem estar escondidos. Todas as residências oficiais já foram tomadas, e as propriedades particulares do ditador foram incendiadas. Há suspeitas de que eles podem estar escondidos nas regiões m...

Crise no Transporte Público de Rio Branco: Mobilização Social e o Direito à Cidade

Foto: Leandro Chaves Na manhã de segunda-feira, 20 de outubro , movimentos sociais e estudantis de Rio Branco (AC) realizaram um ato de protesto no Terminal Urbano da Capital , principal ponto de embarque e desembarque de passageiros da cidade. A manifestação denunciou a grave crise no transporte público que há anos afeta a população rio-branquense. Os manifestantes criticaram a má qualidade do serviço : ônibus sucateados , quebras constantes , atrasos frequentes , poucas viaturas — o que causa superlotação — e ausência de climatização , tornando as viagens desconfortáveis sob o calor intenso. Apesar disso, milhões de reais são repassados à empresa Ricco , única concessionária do transporte urbano de Rio Branco. A contratação da empresa, feita por meio de um edital emergencial , vem sendo prorrogada há anos, sem nova licitação pública. Uma Luta por Direitos e Dignidade Mais do que uma reivindicação por ônibus melhores, o movimento representa uma luta por direitos fundam...