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Resenha - O Rei de Amarelo de Robert W. Chambers

 


Publicada em 1895, pelo autor americano Robert W. Chambers, O Rei de Amarelo é uma coletânea de nove contos sendo os quatro primeiros de horror sobrenatural centrados numa peça fictícia, que leva o mesmo título da coletânea, e supostamente causa loucura em quem a lê. Os demais textos alteram-se entre temáticas fantásticas diversas, e contos mais realistas centrados ou no drama ou no romance. Mas é claro que o crème de la crème do livro são os contos de horror do Rei Amarelo.

Esses contos influênciaram vários autores como H.P. Lovrecraft que inclusive incluiu elementos do Rei de Amarelo em sua mitologia de horror cósmico envolvendo a entidade Cthulhu tais como Hastur, Carcosa e o emblema amarelo (falaremos deles mais adiante). Elementos estes que também aparecem na primeira temporada da série True Detective, o que evidencia como a influência da literatura de Chambers tem sido duradoura, afinal é um livro de mais de cem anos de idade.

Quantos aos contos segue um breve sinopse de cada, só para dar aquele gostinho:

O Reparador de Reputações

Conto ambientado de um Nova York distópica de 1920 (o que seria o futuro para o autor), segue um narrador paranoico obcecado com um suposto direito de herança imperial que ele teria, aqui aparecem as primeira referências à peça O Rei de Amarelo que o infeliz personagem principal teria lido.

A Máscara

Em Paris um escultor por meio de alquimia descobre uma substância que transforma materia viva em mármore perfeito, o que começa com belas esculturas de flores, logo evolui para pequenos animais e acredito que vocês podem imaginar o que vem em seguida. Na casa do escultor que descobriu a desgraçada substância encontra-se o emblema amarelo.

No Pátio do Dragão

Um homem em uma igreja parisiense sente-se perseguido por um organista que busca sua alma evocando o emblema amarelo.

O Emblema Amarelo

Um artista em Nova York é assombrado por um zelador grotesco e pelo símbolo amarelo, levando à loucura após ler a peça proibida.

Esses primeiros quatro contos fecham a mitologia do Rei de Amarelo no livro, todos eles são indepentes entre si, mas possuem diversos elementos de ligação entre eles, personagens de um conto que são citados no outro por exemplo, repetição de cenários etc. São nesses contos os elementos como Hastur e Carcosa são mencionados sem uma explicação muito clara do que são essas palavras, se são lugares ou pessoas (entidades). O próprio Rei de Amarelo, não se sabe se é apenas uma peça ou se uma existência real. Essas aparente falta de explicações acaba se tornando o que é mais fascinante nesses contos e certamente foi um ponto de influência para a literatura de Lovecraft que focava seu horror não em descrições grotescas e mirabolantes, mas sim no medo do desconhecido, no medo de algo tão terrível que a mente não consegue conceber. Tanto é que neste livro alguns momentos da peça O Rei de Amarelo são citados, mas nunca o segundo ato, justamente onde as pessoas enlouquecem durante a leitura.

A Demoiselle d'Ys

Romance envolvendo viagem no tempo, séculos antes de A Casa do Lago com Keanu Reeves e Sandra Bulock.

O Paraíso dos Profetas.

Sequência de poemas e prosa etéreos, inspirados em trechos da peça O Rei de Amarelo.

A Rua dos Quatro Ventos

Artista em Paris segue um gato até uma vizinha misteriosa, terminando em uma tragédia atmosférica.

A Rua da Primeira Bomba

Durante o Cerco de Paris (1870-71), um artista reencontra sua esposa em meio à guerra.

A Rua de Nossa Senhora dos Campos

Boêmios americanos em Paris vivem romances leves e cotidianos.

Rue Barré

Boêmios em Paris enfrentam ciúmes e separações, com tom romântico e final irônico.

Desses contos o mais interessante para mim foi Demoiselle d'Ys, pois ao mesmo tempo que mexe com uma espécie de folclore celta trata também de viagem no tempo onde um homem retorna ao passado e acaba tendo um amor impossível com uma camponesa. Paraíso dos Profetas pra mim é só um ajuntado de poemas, não vi muita graça, algumas referências ao Rei de Amarelo, mas só. Então chegamos às quatro ruas, não recordo muito bem da rua dos quatro ventos, mas não me chamou atenção, talvez merece uma segunda leitura mais tarde. A Rua da Primeira Bomba é bem dramático, se passa numa París sitiada, lembra muito romances e filmes de guerra, com a exceção é que é bem anterior às duas Guerras Mundiais que iriam popularizar esse tipo de narrativa. Rua Nossa Senhora dos Campos e Rue Barré eu achei terrivelmente enfadonhos, sequer lembro das histórias, mas me pareceu terem esse estilo de romance realista que aborda o cotidiano, assim como as obras de Machado de Assis, mas sem o talento e a ironia de Machado. A bem dizer Rue Barré tem pelo menos um ato muito engraçado onde o personagem atrapalhado compra dezenas de flores e acaba mandando uma só pra a amada dele e lotando o próprio quarto com flores desnecessárias.

Enfim, O Rei de Amarelo começa muito melhor do que termina, mas mesmo assim seus quatro primeiros contos são verdadeiras obras primas, precursores do terror cósmico e com alguns momentos realmente assustadores.


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