Pular para o conteúdo principal

A Metade Sombria, de Stephen King: quando um pseudônimo ganha vida e decide matar seu criador


Escritores e suas identidades secretas.

Pseudônimos não são raros na literatura. Fernando Pessoa tinha, pelo menos,   uns três, inclusive escreveu-lhes biografias. Clarice Lispector também criou um para seu último livro A Hora da Estrela, Anne Rice, a mãe do vampiro Lestat também escreveu uma trilogia de obras eróticas com a Bela Adormecida sob um pseudônimo e Stephen King, o mestre do terror moderno, também teve o seu. Richard Bachman era o nome dele, sob este pseudônimo ela lançou seis livros, pela minha conta, até que um belo dia descobriram tudo. Suposições foram levantadas, King negou, alguém fez lá suas pesquisas e apareceu com a prova de que os livros de Bachman eram na verdade de King e este não pode fazer nada para provar ao contrário a não ser admitir, ele era Bachman. Assim, Richard Bachman teve uma morte prematura e hoje só existe Stephen King, mas e se Bachman tivesse resistido?

Essa é a premissa que originou A Metade Sombria onde Thad Beaumont, professor e escritor, que é desmascarado como sendo George Stark autor de uma série de livros policiais e extremamente violentos, confrontado por um estudante de direito que descobre toda a armação e tenta extorquir dinheiro de Thad para manter o segredo. O escritor tem a sua frente duas opções, revelar tudo ou ceder à chantagem, encurralado, escolhe a primeira e revela ao mundo que é e sempre foi George Stark e que seu pseudônimo estava oficialmente morto. Mas não parou por aí, para oficializar o ato uma encenação foi montada no cemitério da cidadezinha de Castle Rock (fãs de King saberão que nada de muito normal vem desse lugar), uma foto, nela uma lápide com o nome de George Stark e a epígrafe “Um cara não muito legal” e atrás o casal Thad e Liz Beaumont posam de mãos dadas selando o fim daquele escritor de livros violentos. Mas Stark se recusa a morrer, não sem lutar. Numa noite o aparentemente inexistente George se levante de seu túmulo de mentirinha e parte em fúria para se vingar daqueles que colaboraram com sua morte prematura e após sua vingança ele pretende exigir de Thad sua existência, com mais um livro em parceria. Porém, a continuidade da existência de George pode ameaçar a existência de Thad e apenas um dos dois pode sair vitorioso.

Em um breve resumo essa é a história de A Metade Sombria, publicado no final dos anos 80 e transformada em filme por George A Romero, famosos pelos seus filmes de zumbis. Não é exatamente o melhor livro de Stephen King que eu já li, mas tem seus momentos. Como Thad e George não são escritores de livros de terror acaba que a obra parece uma grande novela policial sobrenatural onde um homem comum é perseguido por um psicopata, algo similar ao que ocorre no filme Cabo do Medo do Scorcese. Há uma metáfora sombria envolvendo pardais, pássaros que, para a obra, seriam como guias espirituais para o outro mundo. Mas sinceramente, pardal não é exatamente um animal assustador, para fins de uma imagem mental, pense em andorinhas. Eu até “dou meu braço a torcer” para os montes de pardais montando vigília nos fios elétricos e telhados das casas (e faço isso porque o filme trouxe essas cenas e realmente funciona, não é assustador, mas é sinistro). Tem muito assassinato no livro, a parte que seria a vingança de George Stark, mas geograficamente mal distribuídos, basicamente tudo ocorre muito rápido na primeira metade do livro o que dá um inicio bem frenético para a leitura, mas a partir da última morte basicamente não acontece muita coisa até o confronto final e o pouco que acontece é exaustivamente descrito, vamos acompanhando quase que em detalhes as ações dos personagens, porém nem todas essas ações são realmente interessantes, então a leitura pode ficar maçante em alguns momentos.

Essa verborragia é, inclusive, uma das marcas registradas do Stephen King que é bom em alguns momentos. Ele é um escritor que cria muitas localidades imaginárias e tem uma habilidade de através de seu texto dar vida a esses lugares de papel como se fossem reais, como se o escritor estivesse estado lá e visto e vivido naqueles lugares. Porém, para efeitos de ação, ou seja, de dar andamento à uma história, o excesso de escrita e explicações pode ser um entrave ao fluxo da narrativa, tornando-a cansativa. Infelizmente esse último aspecto é o que prevalece em A Metade Sombria. Embora, parte do livro se passe em Castle Rock, umas das cidades imaginárias de King e uma das mais famosas ao lado de Derry, a cidadezinha em si não é parte importante da história, que horas vai para Ludlow e Nova York, ou seja, não é importante criar cenários e contextos convincentes para o leitor, mais importante era focar no fluxo da história, aqui era necessária uma escrita mais dinâmica.

Importante destacar que é uma crítica minha. Se você é fã de King e do seu estilo certamente irá gostar desse livro em todos os seus aspectos. Pois é uma narrativa policial onde um escritor aparentemente pacífico se vê perseguido por um psicopata que mata seus amigos e conhecidos, um homem comum que se perante uma ameaça sobrenatural, afinal o psicopata é uma criação da sua mente tornada carne por sabe-se lá que poderes sinistros, além da constante presença de um sinistro exército de pardais que pousam ao redor do escritor. É também, uma metáfora interessante sobre o processo de escrita suas alegrias e seus sofrimentos.

Ao fim, gostaria de tecer alguns comentários sobre a conclusão da obra. Então se você não leu e pretende ler aqui um grande e chamativo aviso de:

 

SPOILERS

 



Os pardais estão voando!

King para mim tem um segundo grande defeito que se mostra, principalmente, em seus romances, nos contos menos, que são suas conclusões. Não é que seja ruim, mas tem momentos que eu tenho dificuldade de acompanhar. Vamos analisar o livro em questão. George Stark se torna vivo e mata de forma violenta todos os que colaboraram com sua morte, além daqueles que, embora inocentes, tiveram o azar de ficar no caminho de sua vingança. Os editores de Thad Beaumont que concordaram em dar um fim no pseudônimo, a fotógrafa que imaginou a foto com o túmulo falso, o jornalista que escreveu um artigo onde Thad revelava tudo, o estudante de direito malandro que tentou extorquir Thad e acabou sendo o causador de todo o problema, mas também alguns policiais que estavam no caminho, um senhor aleijado de quem ele rouba a caminhonete dentro outros. Porém nada disso é suficiente, George está morrendo, ele não devia existir e seu corpo está se deteriorando, perdendo a coesão nas palavras do próprio personagem, ele precisa escrever, mas não consegue, ele precisa de Thad, precisa que o ensine a escrever para sua existência de tornar completa então ameaça o escritor ou ele escreve mais um livro de George Stark ou sua família vai pagar o preço. Thad sabe que sua mente de alguma forma criou George Stark e que ele não parar até estar completamente vivo e que sua família não estará segura enquanto Stark existir e de alguma forma a única chave para sair dessa armadilha são os pardais. Desde de criança Thad escuta esses pardais, inicialmente parecia ser sintoma de um tumor no cérebro que ele teve quando era criança e que foi retirado por um neurocirurgião dr. Prichard, mas o tumor não era um tumor era um feto, absorvido por Thad no útero e ainda com resquícios no seu cérebro. Esse feto mais tarde se tornou George Stark na mente de Thad e quando decidiu se livrar dele ganhou vida, trazendo de volta consigo o som dos pardais. Sempre que Stark mata Thad escuta dos pardais voando, com o tempo esses pardais vão se tornando reais, quanto mais Stark se aproxima de Thad mais ou crescem em quantidade os pardais, que aparecem nos fios, nos telhados das casas, nos galhos das árvores aonde quer que Thad vá. No fim da história são esses pardais que devem levar George de volta ao mundo dos mortos e isso ocorre num grande duelo de escrita. Beaumont e Stark sentam-se juntos e começam a escrever um novo livro, nesse processo o primeiro começa a se deteriorar fisicamente enquanto o outro rejuvenesce, porém enquanto Stark está distraído Thad assopra um apito de pássaros e milhares de pardais (imagem mental, andorinhas, lembre) invadem a casa, quebrando vidros, derrubando paredes, arrombando portas, avançam sobre o corpo de George Stark e enquanto o devoram vivo levantam seu corpo em direção ao céu e somem com ele. Assim acaba o livro. Eu acho um pouco exagerado e necessário muita imaginação para levar esse final a sério. Não vou aqui bancar o esperto e indicar qual final seria melhor para uma história dessa, ou vou sim, eu acharia mais interessante algo centrado na própria arte da escrita para dar fim da um pseudônimo literário, mas também não sei como o autor poderia botar isso em palavras. Os pardais nos galhos das árvores, silenciosos e vigilante é sim uma imagem lúgubre, mas a partir do momento que eles viram um turbilhão derrubando paredes de casas e levando o corpo de um homem para o céu, me pareceu exagero.

Enfim, esse foi para mim A Metade Sombria, não é meu favorito, mas é uma boa leitura para passar o tempo. O filme também não é meu favorito de George Romero, nesse caso eu indicaria A Noite dos Mortos Vivos, mas é uma boa pedida principalmente caso você queria conhecer a história sem toda a prolixidade do Stephen King e o filme é bem fiel ao livro desde o início até a conclusão, então vale a pena dar uma conferida.

Caso você tenha gostado desse livro considere adquiri-lo em versão física ou e-book pela Amazon através do meu link de associado abaixo, assim você adquire o seu produto e ajuda este blog através das comissões de venda.

https://amzn.to/4uPA6RQ

Considere também visitar minha página de associado na Amazon a Estante Inteligente lá você encontra diversas indicações em livros, quadrinhos, gadgets e utensílios em geral para montar sua estante de leituras, música e decoração.

https://a.co/d/0i7we166

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sam Neill: 4 filmes de terror essenciais além de Jurassic Park

  A primeira imagem que a maioria das pessoas tem do ator Sam Neill — eu incluso — certamente é a do Dr. Alan Grant no primeiro filme da franquia Jurassic Park . Sem dúvida, é o papel mais marcante de sua carreira. A cena de sua primeira aparição no parque é inesquecível. Ao chegarem à ilha, há um momento em que o jipe para. Alan Grant então tira os óculos escuros e, em um incrível trabalho de atuação, demonstra toda a fascinação diante do que vê. Sem desviar os olhos, coloca a mão na cabeça da Dra. Ellie Sattler, que estava concentrada na leitura de um mapa, e a vira para a esquerda. Quando ela também fica assombrada, a câmera muda de perspectiva e nós, espectadores, compartilhamos da mesma visão: um dinossauro vivo atravessando a tela. Ian Malcolm, brilhantemente interpretado por Jeff Goldblum, o mais cético da equipe, exclama: "Ele conseguiu!" . Mesmo com toda a evolução do CGI nos dias de hoje, essa sequência continua impressionando quem assiste ao filme pela primeira v...

Um país que cresce pouco e paga caro: o retrato econômico de 2025 na análise do PCB

  Em um momento em que o debate econômico volta ao centro da vida nacional, o economista Edmilson Costa apresenta no site do Partido Comunista Brasileiro (PCB) o artigo “Um balanço da economia brasileira em 2025” , trazendo uma análise crítica sobre os rumos do país. O texto questiona a qualidade do crescimento registrado no último ano, sustentado sobretudo pela exportação de commodities e por setores de menor valor agregado. Costa também chama atenção para o baixo nível de investimentos e para a desaceleração econômica observada ao longo de 2025. Um dos eixos centrais do artigo é a crítica à política de juros elevados conduzida pelo Banco Central, apontada como um dos fatores que restringem o consumo, o crédito e a expansão produtiva. O autor também aborda os impactos sociais desse modelo, como a manutenção de salários baixos, além de comentar medidas recentes que buscam aliviar a carga tributária sobre trabalhadores. Vale a leitura para quem quer entender — e questionar — os...

Os Descordantes: duas músicas

Um nome interessante na cena musical acreana é a banda Os Descordantes, nome referente ao termo descordo, que era o nome dado ao um específico tipo de trova que discorria sobre paixões não correspondidas, daí você já pode adivinhar o tema principal das canções desse grupo, paixões seguidas de pés na bunda e muita, mas muita dor de cotovelo e tudo isso embalado não em alguma espécie de rock erudito medieval, mas na mais tradicional forma de descordo brasileiro a música brega, o samba e um pop rock melodioso e choroso. Mistura que vem funcionando muito bem ao vivo nas casas noturnas e festivais de Rio Branco e outros estados do Brasil. De fato, a banda inclusive já tem um bom conjunto de fãs, tanto é que organizou um show de lançamento numa das casas mais tradicionais de dança e música brega da capital a Saudosa Maloca lotando lugar. A grande expectativa do ano é o lançamento do primeiro disco da banda Espera a Chuva Passar, que reunirá muitas das canções pop/brega já conhecidas do p...