quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A Coisa, enfim uma adaptação decente de Stephen King


It ou A Coisa é um dos maiores clássicos do autor norte americano Stephen King. Um tijolaço que varia de 900 e tantas à mais de mil páginas dependendo da edição, a minha tem menos de mil, mas uma letra do tamanho de bula, lê-lo, aos quinze anos de idade, foi quase uma malhação pros bíceps. Pra quem gosta de terror, fantasia e prolixidade o livro é um deleite. Eu adorei quando o li, até chegar ao final, mas disso falaremos em outro momento.

A sinopse de It no livro começa falando de uma cidade assombrada no Maine onde sete crianças conheceram o terror pela primeira vez. A tal cidade é Derry uma pequena e pacata (pero no mucho) cidade do interior norte americano, aquele tipo de lugar idílico onde todo mundo se conhece e vive num ambiente de suposta tranquilidade e boa vizinhança. Mas tal tranquilidade é apenas uma fachada, uma presença aterrorizante vive nos subterrâneos de Derry, se alimentando de crianças e medo e as sete crianças, também conhecidos como o clube dos perdedores, são os únicos capazes de enfrentar a criatura.

A maior proeza de King em seu livro é criar, em prosa, uma cidade completa, em sua rica e sombria complexidade. Derry tem seus pontos de referências muito bem delineados, tem uma história longa e rica, contada através das pesquisas de Mike Hanlon, no livro ou Ben Hascon, no filme. Com liberdade, e espaço para escrever, King trata também de delinear o perfil psicológico da cidade, o que pode inclusive ser visto como uma verdadeira critica social à classe média norte americana. Isso porque, acima de tudo, Derry é uma cidade hipócrita. Na sua fachada cidadãos pacíficos e felizes, mas no fundo são cheios de ódio e rancor, como descobriu da pior forma Adrian Mellon (opa... ainda não é hora de mencionar ele... pra quem só viu o filme).

Nesse meio temos Pennywise, o monstro palhaço que habita nos esgotos de Derry. Um monstro que ataca e devora crianças se alimentando principalmente de seu medo. Parcimonioso, na tradução brasileira dos livros, é como uma encarnação de tudo de podre que tem na cidade, representado principalmente pelos adultos, que, de certa forma, são os grandes vilões da história. Como o pai pedófilo de Berverly, a mãe hipocondríaca de Eddie, os pais ausentes de Bill ou ainda o pai psicopata de Henry Bowers, uma criança corrompida pela maldade de Derry e vilão de segunda linha. Reforça essa visão o fato de que o palhaço é invisível aos adultos e sua matança histórica e periódica é ignorada pelas autoridades incapazes de ver que algum mal está a solta na cidade. Não seria de espantar que Pennywise fosse um ponto de conjunção de toda a maldade de Derry, uma abominação surgida do mal, nas palavras de Don Haggarty à Harold Gardener (calma, vocês vão conhecê-los) quando perguntado quem era o palhaco: "Era Derry, era esta cidade"

O filme, apesar da compreensível e inevitável necessidade de reduzir a história e seu contexto para encaixar na curta duração de um filme, conseguiu colocar em tela todas as diversas facetas do livro, algumas com mais enfoque outras com menos, obviamente. A coisa é muito mais que um palhaço, embora no filme ele praticamente só apareça nessa forma, questão de criar uma identidade visual bem definida. Os vilões adultos também estão lá, mas sua representação é mais leve que no livro, bem como hipocrisia da cidade também é mostrada, ainda que de forma sutil e não escancarada como livro, onde é perceptível que a cidade é a Coisa são uma só. Há também no livro uma viajada psicodélica cósmica envolvendo uma Tartaruga, mas isso filme optou por deixar de fora (ainda bem), vamos ver no segundo.

Quanto aos atores, que beleza de escalação, os atores mirins todos estão ótimos, representações perfeitas do livro, Bill Gaguinho é o líder nato, Richie é chato e boca suja, com um bônus, no filme ele é engraçado, no livro só chato, Eddie e Stan são os relutantes, Beverly é tão linda, ruiva e forte quanto no livro, Ben é inteligente e tímido e Mike é forte, o negro num mundo de brancos, ainda tendo que enfrentar o racismo que jamais sumiu na sociedade, principalmente quando se fala de Derry. O roteiro é excelente, não deixa pontas soltas, se por um lado corta muita coisa legal (e violenta), também corta muitos exageros (bizarros) típicos de King, leva bem ao pé da letra o bordão de Pennywise "Você também vai flutuar", no livro é mais uma força de expressão mesmo e dá um desfecho diferente, mas satisfatório a essa primeira metade da história, aliás diferente mesmo só o modus operandi, mas o resultado é o mesmo.



O Terror fica só na nomenclatura já que não dá medo nenhum, muito mais uma versão dark e pesada dos Goonies ou, pra pegar uma referência mais contemporânea, Stranger Things, o fato de terem escalar um ator da série pra interpretar Richie Tozier só reforça isso. É a melhor adaptação de King desde O Nevoeiro (aquele do Frank Darabont, não aquela porcaria da Netflix) e aguardo com uma mistura de ânsia e cautela a segunda parte, o filé do livro é a história das crianças, a fase dos adultos é mais ou menos, os roteiristas vão ter que fazer um ótimo trabalho pra superar essa primeira parte.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

O Nevoeiro 2017

O Nevoeiro é um dos melhores contos de Stephen King. É a abertura da sua segunda antologia de contos chamada Tripulação de Esqueletos. Enorme como ele só é quase um livrinho separado dentro da antologia, merecendo até divisão em capítulos. Anos mais tarde foi transformado num filme melhor ainda pelas mãos do mestre Frank Darabont que já adaptou com maestria outras duas obras de King, a saber, Um Sonho de Liberdade e À Espera de Um Milagre. Mais cruel, mais visceral e pessimista que a própria obra escrita, o filme é um primor, o próprio autor reconheceu a reviravolta final de Darabont no filme superou a sua no livro.

E então veio a Netflix...

Eles não destruíram a obra, quem quiser uma excelente experiencia em fantasia, terror e tensão, pode buscar as obras referenciadas ali em cima. Porque com certeza não é o que vocês vão encontrar na versão na Netflixiana da obra.

Aparentemente, sem dinheiro para fazer um Nevoeiro decente, os produtores da série resolveram focar nos aspectos psicológicos da obra. Logo em vez uma bruma repleta de monstros que bobeou dançou, temos aí uma fumaça CG bem mais ou menos que mata aleatoriamente, é lerda e aparentemente sabe ler mentes e usar... bem eu não entendi se os piores medos ou as piores culpas das pessoas para matar elas, mas nem sempre as vezes aparece só alguma bizarrice tipo o rapaz transformado em mariposa gigante ou o cara das sanguessugas, enfim. 

Acho que a pior coisa é que o Nevoeiro, tão letal na obra original, enquanto algumas pessoas não aguentam uma passagem num corredor cheio de névoa, outros saem correndo no meio dele, param, gritam pelos outros e até atravessam a cidade ilesos. Ou ainda enfrentam no mano a mano, com bastante sucesso, as aparições assassinas. 

Mas assim como no original, o nevoeiro é apenas um pretexto, um elemento de tensão, porque o horror mesmo acontece através dos personagens humanos. Ou deveria. Particularmente, fora o heroico pai de família personagem principal.... pera aí vou aqui pesquisar o nome dele.... Kevin, então o Kevin começa a série incrivelmente chato, mas termina de forma primorosa quando, já nos últimos capítulos ele percebe que todos na cidade viraram uns cuzões de merda, não vou contar o que ele faz, iria estragar, mas se você enfrentar o marasmo até o final, vai se sentir recompensado.

De resto, temos, Alyssa Sutherland a rainda Auslaug em outro papel irritante (será que é a atriz?) como Eve esposa de Kevin e mãe de Alex uma jovem envolvida numa dramalhão de novela mexicana. Mais um punhado de coadjuvante chatos, desinteressantes que você só queria que o nevoeiro pegasse logo.

E vamos falar dos ahn... vilões.... nossa que reunião de vilões medíocres temos nessa série, temos a tensão fanática religiosa na pele de uma senhora New Age que nem de longe chega aos pés da assombrosa Sra. Carmody e sua arenga cristão apocaliptica, aqui vira uma palavreado manso sobre a natureza, a vida e a morte, Nathalie a nova porta voz do fim dos tempos, só consegue reunir quatro gatos pingados e ainda perde os dois no caminho. Temos o lobo em pele de cordeiro que só se revela ao final, patético, o segurança estérico, ridículo, o militar misterioso, irrelevante. 

Por fim, outro defeito é que pelo visto, para os roteiristas, em situação de Apocalipse sobrenatural, ninguém é capaz de uma atitude racional, fazem burrices, coisas loucas e sem razão, sexo fora de hora e criam teorias mais patéticas que a Terra Plana pra explicar o fenômeno. 

O que mais aterroriza em toda série mesmo é o gancho final para uma segunda temporada. Me arrepia pensar em mais dez episódios desse troço.

Vá por sua conta e risco! 

Cena mais legal da série e acontece no primeiro episódio, de resto é só decadência.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Death Note (2017)

Light Turner é manezão
A verdadeira musa sociopata do filme.
Como você utilizaria um caderno que tem o poder de matar pessoas? Essa questão é crucial para compreender a diferença entre a produção norte-americana de Death Note da Netflix e o original japonês. Vamos lá: opção 1: você não mata ninguém conhecido, monta um esquema baseado em noticiários de televisão, monta um esquema inteligente para que ninguém descubra seu caderno ou Opção 2: você mata seu colega de escola, executa uma vingança pessoal com ele e o mostra pra aquela garota que você é afim, mas nunca falou com você.

É nesse esquema que reside a maior fraqueza de Death Note, seu protagonista e também vilão, Light Turner é um jovem bastante mediano que recebe um grande poder e não sabe muito bem como lidar com ele, seu duplo animado japonês é um jovem gênio sociopata que decide criar um mundo novo executando bandidos da solidão de seu quarto e jamais duvida da justiça de seu comportamento e não tem um pingo de remorso em executar quem se coloque no seu caminho. Já o jovem Light Turner sofre várias crises de moral, exita em matar policiais ou pessoas que considere inocentes.

Essa alteração é importante dado que boa parte da diversão do anime é que se tratava de uma trama novelesca envolvendo dois gênios, Light Yagami de um lado e o detetive esquisitão L do outro, ambos interpretando a consagrada rixa Sherlock Holmes vs Dr. Moriarty onde a cada episódio uma nova reviravolta gradativamente os ia deixando mais próximos um do outro.

O filme decidiu não seguir por esse caminho. Primeiro que o drama principal ocorre entre Light e sua namorada Mia, essa sim a verdadeira psicopata da história, não demora para que a parceria amorosa entre eles se transforme em tensão e depois em rivalidade, no meio desse "quiprocô" entra L, bem fiel ao seu homônimo no mangá, mas reduzido aqui a um catalisador da tensão entre o casal assassino.

A melhor coisa do filme é certamente Mia, adaptação da personagem original, Misa Amane, se no anime era uma personagem totalmente fetichizada: nova, mentalidade infantil, esbanjando sensualidade de uma mulher madura e totalmente submissa à Light Yagami. Aqui é uma personagem de personalidade forte, psicopata ainda maior que Light Turner, praticamente é dela a ideia de limpar os criminosos do mundo e ela que fica mais obcecada pela missão. A segunda melhor coisa foi Willen Dafoe como Riuk, o deus da morte metaleiro, um dos castings mais adequados da história do cinema.

O estilo folhetim da série original, com uma reviravolta nova a cada episódio foi substituído pela linguagem de videoclipe: frenético, com muita informação sendo jogada a todo instante. Sabe aquelas cenas longas em que os personagens delineiam suas estratégias na mente do original, aqui não tem nada disso.

Mas ao final não é um filme de todo ruim. É uma aventura adolescente razoável para as novas
gerações.

Ps. caso você queira conhecer a melhor versão de Death Note não deixe de pesquisar os dois live actions japoneses Death Note e Death Note - Last Name que adaptam toda obra de forma concisa e na minha opinião com o melhor final de todos.

Deus da morte ou membro do Mötley Crüe?

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

A influência do ABBA em duas ótimas canções de 2017

Você conhece o ABBA? Certamente conhece. É um absurdo não conhecer ABBA. Mas caso não conheça é um sensacional grupo sueco de musica pop que fez sucesso nos anos 70 com clássicos como Dancing Queen, Money, money, money, The Winner Takes it all, Mamma Mia e mais uma longa lista de outras canções. Com certeza você já ouviu alguma.

A banda terminou lá no ano de 1982 e, tal qual Led Zeppelin, nunca mais voltou. Mais de 30 anos depois de seu término continua sendo um nome relevante na música mundial e continua exercendo forte influência nos mais diversos músicos dos mais diversos estilos.

Nesse ano me chamaram atenção duas composições, principalmente que têm em comum, além do fato de eu ter gostado delas, ambas terem forte influencia da sonoridade do ABBA. Ambas são alegres e dançantes, têm algo de retrô, mas são essencialmente canções atuais e cheias de personalidade.

A primeira, de um dos grandes nomes do Rock Progressivo contemporâneo, Steven Wilson de seu mais recente disco To The Bone:



A segunda de uma das maiores bandas indies da atualidade o Arcade Fire, a faixa título de seu mais recente disco Everything Now:


Aumente o som!

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Quando o Heavy Metal está para a contemplação

Metal é música pesada, barulhenta e muito estimulante. A maneira clássica de curtir o heavy metal consiste em usar preto, fazer cara de mal, bater cabeça, no caso balança-la o mais violentamente possível para cima e para baixo e por fim o mosh, jogar-se e bater-se contra os outros fãs com a maior força possível (mas na paz, fique bem entendido). Em resumo, essa é a imagem consagrada de como curtir de maneira saudável um bom show de metal.

Porém, há espécies de metal que convidam a outro tipo de postura, mas calma e contemplativa. Curioso notar que tal tipo de heavy metal ocorra justamente na sua vertente mais extrema e sombria, o Black Metal. É o caso, cite-se como exemplo, do Burzum, projeto de Varg Vikernes, uma das figuras mais controversas do metal, se não da música como um todo, sua proposta nunca foi esse metal citado no primeiro parágrafo, tanto é que ele jamais fez sequer um show ao vivo, aliás jamais tocou Burzum ao vivo, exceto em uma série de vídeos curtos onde ele toca versões de “acústicas” de suas músicas numa guitarra elétrica desplugada na frente de seu computador. O objetivo de Vikernes com o Burzum era criar um outro estado, seus álbuns eram planejados para uma audição solitária, concentrada, que em tese, levaria o ouvinte a outro estado de consciência fazendo-o experimentar de fato o que era tocado nas canções. Para causar esse efeito ele combinou o peso e distorção à uma estrutura de música ambiente com músicas longas, riffs repetidos à exaustão e lentas variações nos ritmos, tornando a música pesada quase num fundo musical para medição. Certamente uma meditação muito mais sombria do que aquela proposta pelo Yôga ou Mindfulness, mas ainda assim uma meditação.

A mesma sensação que me trouxe o Burzum, também senti no trabalho de uma nova banda brasileira de Black Metal chamada Motherwood. Não à toa o Burzum está entre as influências citadas na página da banda, junto com Opeth, Emperor e outras. Eles lançaram um Ep chamado Sadness cuja canção título ganhou um belíssimo clipe. A música é um black metal pesado executado com maestria as influências das bandas citadas fazem-se sentir em sua música longa, com riffs de guitarra repetindo-se criando uma música ambiente sombria que casa com o tema proposto: a agonia da natureza perante à ação do homem. O vídeo é ilustrado com lentas imagens panorâmicas em preto e branco de florestas o que ajuda na imersão. Uma canção que apesar de tão pesada quanto qualquer Heavy Metal convida mais à contemplação do que a “bateção” de cabeça.

Confira:


O que me lembra de outro clipe. Esse do ano passado, de uma banda francesa mais voltada par ao Trash Metal. Para mostrar que heavy metal de contemplação não ocorre apenas no Black. É a música Low Lands do Gojira. Sua construção é mais similar ao Trash Metal, ou seja, numa comparação aqui estaríamos mais próximos do Metallica que do Burzum. Mas há também aqui elementos que dão um ar de música ambiente a Low Lands, casados com imagens belíssimas, oníricas. Foi um dos clipes mais bonitos que vi no ano passado e agora compartilho aqui.

Verdade que nos minutos finais Low Lands perde essa aura contemplativa e caí num trash pesadão, mas até lá ouça e viaje nas belíssimas imagens que se descortinam a sua frente.


Enfim, trago esses dois clipes só pra demonstrar que metal é peso e é brutalidade, mas também é contemplação e beleza. 

domingo, 4 de junho de 2017

Is This The Life We Really Want? - Roger Waters

Vinte e cinco anos depois de seu último disco de rock e aos 73 anos de idade Roger Waters continua inconformado. Ele esteve inconformado nos anos 70 quando fez "The Wall", ele esteve inconformado nos anos 80 quando fez "The Final Cut" e "Radio Kaos", ele esteve inconformado nos anos 90 quando lançou "Amused to Death" e agora, na segunda década do século XXI o baixista do Pink Floyd continua inconformado.

Inconformado com a situação dos refugiados, inconformado com Israel, de fato, puto da vida com Trump, e, provavelmente e acima de tudo, inconformado com o fato de, depois de ter passado os anos 80 sob a sombra dum holocausto nuclear (vide os finais trágicos de Final Cut e Radio Kaos), as pessoas ainda terem de viver com medo.

Essa é a vida que realmente queremos? Pergunta o músico já no título de seu novo disco, provavelmente o título mais relevante que ele poderia dar nos dias atuais. Primeiramente é bom ressaltar que o novo disco de Waters é um disco político, seu questionamento não é filosófico, não trata de questões introspectivas, mas sim de temas atuais e certeiros, sendo que o principal deles ainda é o medo como guia da vida moderna.

“Fear, fear drives the mills of modern man
Fear keeps us all in line
Fear of all those foreigners
Fear of all their crimes
Is this the life we really want? (Want, want, want, want)
It surely must be so
For this is a democracy and what we all say goes”

O discurso poderia soar datado, não muito diferente dos seus discos dos anos 80, mas soa totalmente atual e plausível para os nossos dias. O próprio músico parece perceber isso, já que após uma breve introdução “When we were Young” a faixa seguinte a abrir os disco se chama “Dejá Vú” cuja letra é a gêmea mais sarcástica e amarga de “If” dos tempos do “Atom Heart Mother”. Já “The Last Refugee” tem a beleza cinematográfica aliada à dureza lírica que havia em “The Final Cut”.

Em vários momentos a sonoridade deste disco remete tanto a "Final Cut" quanto a "Animals" dois grandes discos politizados da época do Pink Floyd, “Smell the Roses” por exemplo encaixa-se perfeitamente no estilo do segundo.

A trinca final são três canções de acento folk conectadas entre si, tanto tematicamente quanto melodicamente, são mais melódicas e leves e, diferente do que faria o Waters dos anos 80, terminam o disco com um toque mais esperançoso.


O disco pode até não alcançar o patamar dos clássicos do Pink Floyd (pra mim faltou só uma certa guitarra pra isso, nós sabemos bem de quem), mas com certeza é um dos discos mais relevantes desse ano. Roger Waters é daqueles que ainda creem no poder da música como um catalisador de mudanças e se a mudança não vier,  pelo menos é a trilha sonora mais bela que podíamos ter pra nossa decadência. Ouça!

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Os Descordantes - Quietude



A música romântica sempre fez sucesso no Brasil, do rock ao sertanejo universitário, perpassando pela MPB e o samba, os temas de amores impossíveis, perdidos, encontrados, reencontrados, iludidos e desiludidos, sempre tiveram boa sintonia com o público. Independente do estilo, há uma facilidade do público de se reconhecer nessas histórias cantadas, para cada situação amorosa que se passar na vida há uma música em algum lugar que serve como expressão perfeita para os seus sentimentos.

Os Descordantes entenderam bem essa demanda, cantando desilusões amorosas em diversos estilos: rock, mpb, samba, brega, pop, evitando delimitar-se em um estilo único e denominando-se apenas como música romântica.  Resultou em se tornarem uma das bandas mais queridas da noite Rio Branquense e em seu primeiro disco "Espera a Chuva Passar", um compilado de todas as canções já executadas ao vivo ao longo dos anos, com algumas inéditas. Se o disco não deixou os músicos ricos, com certeza foi um sucesso entre seu público. Tanto que animou a banda a lançar mais um e assim chegamos ao segundo disco "Quietude".

O novo disco é um trabalho mais homogêneo que o anterior, calcado na MPB, trazendo referências a outros estilos e com toques retrô que, a mim pelo menos, remeteram à música romântica das décadas de 50/60. As músicas casam bem com o título "Quietude", mais calmas, leves e introspectivas. A canção de abertura, "Trem Fora dos Trilhos" já mostra a que veio o disco, ao invés dos pesados acorde de guitarra que abrem "Espera a chuva..." aqui é um piano suave que abre os trabalhos numa canção que me remete, em momentos, ao Radiohead da época do The Bends.

Meus destaques vão, em primeiro lugar, para "Desamor", segunda canção do play, de cara a minha favorita e a mais rock'n roll de todas, ela é seguida pela divertida "Iguais" de clima muito agradável, com direito a corinho de "ulálá's", perfeita pra bailezinhos retrôs anos 60. Na sequência a desiludida "Simplesmente" evoca o clima de “sofrência” do primeiro disco, não me chamou muito a atenção de primeira, mas ela vai crescendo na nossa mente, hoje já me pego cantando-a do início ao fim. Pra encerrar os destaques, o brega descarado volta lá pro fim do disco com "Vai Ver", essa utilização inteligente da música brega (daquele tipo que fazia sucesso nas rádios na vozes de Odair José, Reginaldo Rossi entre outros) sempre foi o grande diferencial dos Descordantes, fiquei feliz em ver que eles não esqueceram de prestar sua homenagem ao estilo nesse disco.

Se senti falta de algo, foi de uma maior variedade musical, como disse lá em cima o "Espera a chuva..." transitava, com naturalidade, por vários estilos: rock ("Descrença" e "Porto e o Rio"), samba ("Amigo Amarelo"), brega ("Hombridade" e "Sair Daqui"). Quietude me parece mais focado na MPB, não que isso seja um defeito em si, é mais pra uma impressão pessoal mesmo. Já estou pela décima audição do disco desde que recebi minha cópia (digital) e posso afirmar que essas canções vão crescendo a cada vez que se escuta o disco.

Com Quietude, os Descordantes fincam bases sólidas em sua identidade musical, sólidas o suficiente para sustentar um terceiro disco, se não vários outros.

Audição mais que recomendada.

Os Descordantes - Quietude
Diego Torres - Guitarra/Vocal
Saulo Melo - Baixo
Heriko Rocha - Teclado
George Naylor – Bateria




domingo, 9 de abril de 2017

Songs of Love and Death - Me and That Man


John Porter (esquerda) e Nergal (direita)
Pra quem está acostumado a ouvir Nergal pesado e extremo como líder da banda de Death Metal Behemoth certamente achará estranho e inusitado seu novo projeto Me and That Man. Aquele homem do título trata de um artista do folk chamado John Porter. Juntos ambos trazem luz (ou sombras) a um projeto com influencias como Johnny Cash e Leonard Cohen (repare na semelhança com o clássico Songs of Love and Hate). 

O resultado de um músico de death metal polonês fazendo música tipicamente americana não poderia ser melhor. Songs of... é possivelmente um dos melhores lançamentos do ano. Ao escutar o disco se tem a impressão uma gravação realizada no sul do Estados Unidos, mais provavelmente em Nashville. Temos country sombrio em My Church is Black, que soa como se Johnny Cash tivesse perdido a fé e se revoltado contra Deus; temos blues em Nightride, Shaman Blues, Magdalene, etc.; temos o garage rock de Better The Devil I Know e da canção título Love & Death. Sem um sinal de gutural, Nergal solta um vozeirão grave e profundo, um Cash das trevas, que casa perfeitamente com a voz mais rasgada e áspera de John Porter. 

A temática das letras, não muito diferente do próprio Behemoth, continuam sombrias, blasfemas e despudoradas, afinal que outro artista bota um coral de crianças pra cantar tal refrão:

We aint coming for forgiveness
We’re not paying for our sins
We betrayed you our sweet Jesus
We have chosen hell on earth

Nunca o despudorado deboche de Nergal ao cristianismo soou tão belo quanto nesse disco. Não deixe de conferir.

sábado, 1 de abril de 2017

Resenha - Emperor of Sand do Mastodon


Com um dos melhores trabalhos de vocal de sua discografia, além dos tradicionais peso, técnica e groove, que são marca registrada do Mastodon, esse novo disco supera seu antecessor, embora, do meu ponto de vista, não supere a excelência de The Hunter.
Emperor of Sand traz um toque mais melódico às canções, que longe de lhes tirar o peso, enriquece-as dando ares ora épicos (Jaguar God), ora introspectivos (Roots Remain). Conta ainda com a canção mais pop da banda "Show Yourself", cativante à primeira audição.
Há uma utilização maior dos vocais do baterista Bran Daylor, mais limpos, além do que Troy Sanders (baixo) e Brent Hinds (Guitarra) ambos vocalistas também, aliás os principais vocalistas na fase inicial da banda, vêem reduzindo o gutural e cantando mais limpo. O que pode tirar a agressividade do som, por outro lado abre horizontes pra banda explorar seu lado mais pop e produzir hits mais palatáveis para quem não é iniciado ao som.
Arrisco a dizer que esse é o disco mais leve da banda, ainda que soe como uma pedrada pra quem não é do meio do Heavy Metal, e o Mastodon parece contente em seguir por esse caminho. E eu tenho me agradado demais com esse viés, embora adore a primeira e mais agressiva fase da banda (dica: é ótimo pra se exercitar), essa nova fase tem mostrado que os músicos, além de competentíssimos compositores de Metal, também são ótimos compositores de melodias.
Gostei e recomendo.



domingo, 12 de março de 2017

Celulares e Gorilas - dois filmes com Samuel L Jackson

Sou fã de Samuel L Jackson desde seu famoso monólogo Ezekiel 25, 17 em Pulp Fiction e sinceramente acho ele um excelente ator. Porém, Jackson, apesar de talentoso, parece não se importar muito em fazer filmes B, aliás, não se importa em fazer filmes toscos mesmo, como esquecer o clássico Serpentes a Bordo ou aquele dos tubarões cujo nome nem lembro. Com certeza ele tem cacife suficiente para escolher só filmes fodões pra estrelar, mas acho que o maior interesse do velho Jackson é mesmo se divertir fazendo seu trabalho.

Particularmente não me importo, até me agrada saber que posso ver um dos meus atores favoritos brilhando num filme do cacife de Tarantino, num blockbuster da Marvel ou na produção B de um diretor que nunca ouvi falar com dois ou três filmes igualmente desconhecidos no currículo. O problema é quando o filme, além de B, é ruim e apesar de ter Samuel L Jackson ele atua tão mal quanto um ator de novela religiosa da Record, como ocorre no filme abaixo:


Cell (2016) - de Todd Williams 


Num belo dia um artista gráfico, Clay Riddel, desembarca no aeroporto de Boston quando todas as pessoas ao seu redor enlouquecem de uma vez e começam a agredir bestialmente umas as outras devido um sinal misterioso que sai dos celulares. Armado unicamente com seu portfólio, já sacando que tem uma parada apocalíptica rolando ele parte rumo a sua casa para salvar sua família (o clássico herói americano), no caminho ele encontra seus companheiros de jornada Tom e Alice, dois personagens convenientemente sem família pra salvar, que na falta de coisa melhor que fazer seguem com Riddel na sua jornada.

Lá fora o mundo tá dominado pelos zumbis (?), boto a interrogação, porque os sujeito não comem gente, simplesmente matam e depois começam a transformar os outros em zumbis também, mas não mordendo, lembra do sinal que saia do celular, pois então, ele começa a sair da boca dos sujeitos e enlouquecem (zumbificam) quem escuta esse troço perto do ouvido. No mais é isso, eles vão viajando por ambientes desertos com relativa segurança já que os tais zumbis desligam a noite, encontram outros sobreviventes e vão avançando até chegarem no final mais anti-climático possível. Tá vendo essa foto aí em cima, que remete a algum clássico de George Romero, pois é, lorota, mal aparecem cinco zumbis por cena e não vi helicópteros no filme.

O filme é baseado no livro Celular do Stephen King, que na moral, já escreveu coisas melhores, mas o livro até traz umas premissas interessantes, que bem exploradas por um bom diretor e roteirista podiam ter deixado esse filme muito mais interessante. Os zumbis são telepatas, comunicam-se entre si e funcionam como um organismo único, a noite todos param e ficam ouvindo uma misteriosa música que sai de seus aparelhos celulares e outros equipamentos eletrônicos que são reunidos pelos próprios zumbis. Com o tempo essa telepatia começa a afetar também os sobreviventes que são guiados contra a vontade para onde os zumbis desejam que eles vão, ou seja, além do incomodo fato de ter que lidar com o fim da civilização como a conhecemos e sobreviver a ataques de zumbis, nossos heróis precisam lidar com o fato de que os falecidos leem mentes e sabem exatamente tudo o que eles estão pensando. O plano pra deter as criaturas envolve uma trama até bastante engenhosa envolvendo o suicídio do cara de teve o plano e Clay Riddel, nosso heróis tendo que dar uma de Sherlock Holmes e sacar de última hora qual a ideia do sujeito pra destruir os zumbis telepatas. Isso ocorre lá pelas ultimas partes do livro e é a parte mais interessante.

Ocorre que no filme isso é aproveitado tão superficialmente que deixa até de fazer sentido, principalmente levando em conta o final sem noção, aliás, noção tem, não teve foi graça. 

Onde Jackson entra nessa história, ele faz o papel de Tom, o amigo de Clay Riddel, que é interpretado por John Cusack e só posso pensar que tanto Jackson quanto Cusack tavam devendo um favor a alguém pra terem feito uma atuação tão ruim e de má vontade, ambos estão no piloto automático, não conseguem fazer outra expressão que não a de tédio. O mundo tá acabando ao redor e eles com cara de fila de banco. Credo!

Esse filme podia ter sido dirigido por Eli Roth, que provavelmente não teria um pingo de respeito pelo roteiro de Stephen King (sim, foi o próprio escritor que conseguiu estragar ainda mais a própria história) e quem sabe teria entregado um filme decente. Isso já ocorreu antes em O Nevoeiro e ainda antes com o Iluminado, Kubrick transformou um livro bom num filme clássico, King odiou, mas se for pra King amar as adaptações de seus livros e entregar coisas como Cell, seria bom que os diretores dessem um foda-se pro que pensa o escritor. 

Kong - A Ilha da Caveira (2017) - de Jordan Vogt-Roberts
A nova releitura do clássico filme do Gorilão também tem a participação de nosso querido Samuel L Jackson, que aqui também, não entrega todo seu potencial de atuação, mas comparado a Cell essa atuação valia até um Oscar.

O filme acompanha a história de Bill Randa um executivo, empresário, sei lá o que de uma empresa que leva uma expedição a uma ilha desconhecida (no pacífico? Deve ser, sempre é no pacífico, não lembro bem desse detalhe), isso logo após o final da Guerra do Vietnam. Na expedição estão a tropa do Coronel Preston Packard (Jackson) o clássico chefão militar enlouquecido pela guerra, aliás, frustrado pela rendição dos Estados Unidos e louco pra comprar e vencer uma briga nova. Mas além das tropas Randa precisa de um especialista em sobrevivência na selva e vai a um puteiro na China encontrar James Conrad (Tom Hiddelston, num puteiro? Na china? É sério que eles querem me convencer que se vou num puteiro chinês em meados dos anos 70 vou encontrar Tom Hiddelston jogando sinuca e comprando briga lá, não cara, não convence) o mateiro, digo o guia da expedição, e por motivos que sei lá, levam também uma fotografa pacifista Mason Weaver (Brie Larson).

Formada a comitiva eles vão pra ilha, chegam lá de helicóptero, jogam bombas pra testar a sísmica do solo, o que irrita pra cacete o Kong que aparece do nada e mata metade da galera, o resto sobrevivente se divide em dois núcleos, os bonzinhos Hiddelston e Larson e os militares liderados por um emputecido Samuel L. Jackson que não quer nem saber de sair da ilha, quer é matar o macacão. 

O núcleo bonzinho obviamente vai encontrar a clássica tribo que mora na ilha, um sobrevivente americano da Segunda Guerra pra fazer a ponta comunicacional e vão aprender a história e Kong e como na real ele é o bonzinho e não vilão. Esse núcleo não funciona muito bem, o personagens não tem arco e entram e saem do filme do mesmo jeito, esquecíveis, exceto Hank Marlow, o sobrevivente da segunda guerra, uma graça do início ao fim do filme. O núcleo militar funciona melhor, são divertidos e muitos deles fazem a evolução do personagem na história, o que faz a gente realmente se importar com eles, já Packard, o coronel malvadão, faz o arco inverso, começa ruim e termina pior ainda em sua obsessão com uma vitória.

Lendo até aqui pode parecer que não gostei do filme, pelo contrário, eu adorei. Se seus personagens humanos não são lá essas coisas todas, isso pouco influencia, porque o filme não é sobre eles é sobre Kong e sua Skull Island, e que gorilão da porra senhores, o maior já feito no cinema, a ilha é belíssima, o que é ressaltado por uma fotografia sensacional, ótimos efeitos e cenas de ação de tirar o folego e afinal foi isso que os trailers prometiam e é isso que o filme entrega (e foi pra isso que fui cinema). O diabo do macacão faz picadinho de helicópteros, destrói montanhas, desse o cacete em lagartões gigantes em cenas muito influenciadas pela estética dos animes orientais. 

Kong é uma ótima atualização de história clássica que não busca prestar homenagens, mas abrir possibilidades pra exploração de novos horizontes, dizem que a intenção da legendary é criar um universo de monstros onde Kong, Godzila e até mesmo os Kaijus de Pacific Rim co-existam numa mesma realidade ficcional. Mas se não der certo também é um excelente filme de Kong, deixa um gosto de quero mais ao final. 

Ah, falei de Samuel L Jackson no início, pois bem, ele atua bem, cumpre seu papel, mas uma direção melhor dava pra ter espremido um pouco mais do ator e deixado seu personagem mais marcante. Não faz feio, mas a gente sabe dos potenciais de Jackson quando bem dirigido.