sexta-feira, 8 de junho de 2018

PREQUELLE - Ghost se entrega ao pop e lança seu melhor disco até agora

Não é de hoje que tenho achado o Ghost um dos melhores acontecimentos no rock mundial. A banda surgiu ao mundo macabra, envolta em panos pretos, corpse paint, simbologia satânica e letras sinistras, mas quando o som começava a tocar, que surpresa, não era o peso e a brutalidade que se esperava, ele era suave, grudento, retrô, pop. Essa dicotomia entre visual e som marcou o Ghost no início de sua carreira, conquistou muitos e afastou outros tantos. As celebridades do rock pareceram abraçar a causa da banda, assim como o mundo da música.

Toda a aura fúnebre emanada por Papa Emeritus e seu séquito misterioso de músicos que jamais revelavam suas identidades, os Nameless Ghouls, não demorou muito pra desvanecer. O satanismo do Ghost era uma piada e assim a banda o tratava, assim a aura de mistério foi dando lugar a um humor despojado. Papa Emeritus Segundo começou a aparecer sem maquiagem em Las Vegas, acompanhado de modelos e lançando sua própria linha de brinquedos sexuais. Papa Emeritus Terceiro abandou a batina e mitra por um terno mais leve e uma basta peruca, começando a se apresentar menos como  membro de um clero satânico e mais como um pregador evangélico. Agora, temos Cardinal Cópia, não é um papa, é aspirante, chega aí jovial, vestido numa jaquetinha de couro reluzente e gingado sexy, promete revolucionar.

A banda parece ter uma visão musical muito bem definida, no primeiro disco pesou no hard rock setentista e trouxe a memória nomes como Blue Öyster Cult e Mercyful Fate, no segundo focou na produção, trazendo corais, orquestrações e um foco no rock progressivo, o terceiro disco focou no peso e agora, chegando ao seu quarto disco, a banda abraça uma vertente que vinha dando sinais desde seu primeiro disco, o pop. 

Prequelle ainda é um disco de rock, talvez até mesmo tenha algo de metal, mas é inegavelmente um disco pop, músicas como "Rats" e "Dance Macabre" estão aí pra comprovar, ambas são os carros chefes do disco, feitas pra ficarem grudadas na sua mente, quer você goste delas ou não (eu adorei as duas aliás), sendo que a segunda tem um ritmo irresistivelmente dançante pra combinar com seu nome. O metal NWOBHM bem retrô dá as caras em "Faith" e num breve riff de guitarra de "Rats" também. "Pro Memória" cumpre a cota de baladas que misturam o macabro da letra com a beleza da música. "See The Light" é um canção pensada pra grandes platéias, inclusive com deixas para o público cantar junto.  "Witch Image" tem um refrão excelente, grudento (você vai se perceber querendo cantar junto), só tem um pouco de trabalho de se destacar dentre um desfile já tão bom de canções.

Dentre essa já respeitável playlist existem ainda duas pérolas. "Miasma" e "Helvetesfonster", duas tour de force instrumentais onde a banda dá vazão a todo seu potencial progressivo, mas sem exageros. A primeira, mais pesada, conta com um rock'n roll de primeira que evolui num crescendo e cumina num surpreendente solo de saxofone. A segunda, mais intimista, busca sua beleza na melodia e harmonização dos instrumentos elétricos com os acústicos.

"Life Eternal" é uma musica breve com vocais grandiosos, mas vai baixando o tom para fechar o disco com suavidade, daquelas canções que não deixam dúvidas que a viagem musical chegou ao fim, mas sempre com aquele gostinho de quero mais.

Acho que musicalmente a banda nunca esteve tão bem. NWOBHM, Prog Rock, Pop, percebe-se que é vasta a gama de influências donde a banda busca inspiração para suas canções. Cada vez mais determinada em se tornar um fenômeno pop, mas sustentado por ótimas composições. Prequelle demonstra que o Ghost veio aí pra ficar!
Caso você esteja se perguntando: onde diabos eu vi essa capa antes?
Ta aí

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Boarding House Reach de Jack White

Jack White não entra em estúdio pra fazer feio. Seu terceiro disco é fácil um dos melhores lançamentos de 2018. É um disco bem difícil de classificar já que ao que parece White usou todas as referências musicais que ele possui em sua composição. São treze canções que variam entre o hard rock, o blues, o noise, o psicodélico, o jazz, a poesia, enfim uma grande mistura que poderia soar insano, mas não soa, pelo contrário, é muito bom!

O disco começa pomposo com "Connected by Love" com andamento mais lento e corais gospel, fica ainda mais lento e mais pomposo com "Why Walk a Dog" e seus órgãos de igreja pra cair num groove dançante na animada "Corporation", onde Jack recita a letra e grita com a potência de uma sirene sobre uma base musical sólida e suingada. Destaque ainda para o poema recitado ao som de piano e violino em "Abulia and Akrasia" e a canção final "Humoresque" adaptação do músico erudito Antonín Dvorák.

Seria fútil tentar descrever todas as canções, já que a tônica do disco parece ser o bizarro, o próprio músico já avisou que seria assim. Uma olhada rápida na ficha técnica com mais de 24 músicos de estúdio e uma variedade enorme de instrumentos, e creia, todos eles com um momento de destaque no disco, já demonstra toda a variedade musical que o compositor tentou trazer para seu disco.

Jack White e suas guitarras são as estrelas do disco por óbvio, mas pra mim também merece destaque a excelente cozinha formado pelo baixo e bateria, juntos ambos trazem um groove contagiante que não deixa a peteca cair mesmo nos momentos mais bizarros do disco.

Certamente Boarding House Reach é o disco mais fora da curva da discografia de White e facilmente poderia ser classificado como uma ego-trip do compositor. O que se reforça pela declaração de que o compôs o disco de forma que o som saísse da forma mais parecida possível como soava em sua mente . Se assim for, é uma viagem em que embarquei com gosto. Só com uma ressalva para a arte de capa de extremo mal gosto, mas isso é secundário, afinal o que importa mesmo é a música.

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sexta-feira, 30 de março de 2018

Spartacus (1960)

De todos os filmes que já vi de Stanley Kubrick, Spartacus é o que menos parece um Kubrick. Primeiro porque, na verdade, era o filme de Kirk Douglas, ator principal e produtor executivo, segundo porque começou dirigido por Anthony Mann, com quem Douglas brigou por diferenças artísticas na concepção do filme e só então chamou um ainda jovem Stanley Kubrick para a direção, que aliás também teve discussões com Douglas quanto ao direcionamento do filme, mas acabou tendo que se submeter ao ator, depois disso Kubrick teria tomado a resolução de somente fazer filmes em que ele tivesse amplo controle criativo.

Isso não tira o mérito do filme de ser uma verdadeira obra de arte, nem de seu diretor pelo brilhante trabalho. Um épico histórico com mais de três horas de duração, produção impecável e efeitos especiais decentes, principalmente considerando que foi feito quando nem se cogitava computação gráficas nos filmes.

O filme conta a história de Spartacus, nascido escravo é vendido para ser treinado como gladiador, na sua primeira luta até a morte é polpado por seu oponente Draba que é morto por sua insubordinação, tal piedade inflama Spartacus que começa uma rebelião de escravos em busca de liberdade que irá abalar os alicerces de Roma. Para além desse conto épico, também é um filme político ao explorar o jogo de poder no Senado Romano, principalmente entre o Senador Gracco e o General Crasso, oponentes políticos, o primeiro interessado em manter a República a qualquer custo ainda que tenha que tomar atitudes questionáveis, o segundo sonha com uma Roma purificada com ordem, fé aos deuses e livres de corrupção, para isso sonha com o poder concentrado na mão de um líder forte (ele mesmo claro). 

Um jogo político que pode ter muito a dizer ao nosso país. Numa das falas mais poderosas do filme o Senador Gracco, busca alertar o senado das intenções tirânicas de seu rival Crasso, quando um dos senadores argumenta que Crasso foi um dos poucos que jamais cedeu a corrupção ele responde: "Prefiro um pouco de corrupção republicana com a liberdade republicana do que tirania de uma ditadura e liberdade nenhuma". Ao fim, Crasso usará a rebelião dos escravos para incitar o terror em Roma e dessa forma se apresentar como o salvador ao concentrar sobre si todos os poderes dando o primeiro passo do viria a se tornar o império dos Césares. Caio Julio César que viria a se tornar o primeiro dessa linhagem aparece no filme como coadjuvante. 

Obviamente que Roma era um república só para os seus patrícios, para todos os demais era mera tirania, principalmente para os escravos. O filme busca mostrar como eles eram tratados como meros objetos de exploração cujas vidas estavam a disposição dos patrícios até mesmo para entretê-los onde entra as batalhas dos gladiadores. Após a rebelião os escravos são humanizados, passam a ter sonhos, aspirações por liberdade, a irmandade que estabelecem entre si é quase idílica, sem atritos, brigas ou traições. A essa sociedade comunitária é aposto os jogos de interesse político de Roma. 

Spartacus ganhou os Oscars por Direção de Arte, Fotografia e Figurino, merecidíssmos, fora a caracterização belíssimas dos personagens o filme nos brinda a todo momento com cenas de grande beleza, algumas verdadeiros quadros renascentistas em movimento. As cenas de batalhas são em escala épica, impressionantes mesmo hoje em dia.


E para quem é fã de Kubrick vai impressionar também o caráter emocional do filme. Para um diretor tão cerebral e pouco afeito a trabalhar as emoções humanas, pelo menos, as boas emoções humanas como amor, a fraternidade e o altruísmo, Spartacus é um oportunidade única para vermos um Kubrick mais emotivo. Provavelmente, muito disso teve a mão de Kirk Douglas interferindo na visão do diretor. Mas mesmo assim, são momentos belíssimos e comoventes, como a cena final (ALERTA SPOILER) quando vemos um Spartacus crucificado olhando pela primeira vez o rosto de seu filho.

Um grande filme (em todos os sentidos) que vale a pena ver. 

terça-feira, 20 de março de 2018

Maria Madalena

A iniciativa de filmar uma história de Cristo do ponto de vista de Maria Madalena basta, por si só, para ser polêmica. Afinal, o novo filme de Garth Davis (diretor de Lion) é uma história de Cristo, no fim das contas. O filme busca uma nova visão para uma das mais injustiçadas figuras bíblicas. Erroneamente tratada, durante séculos, como prostituta redimida por Cristo e constantemente confundida com a prostituta salva do apedrejamento por Jesus. Cena clássica que é sequer mencionada nesse filme. 

O diretor nos apresenta uma Maria Madalena de grande sensibilidade e empatia que se sente deslocada no papel que lhe é designado pela família, a obrigação de casar e ter filhos. Esse deslocamento faz sua família acreditar que a mesma esteja possuída por demônios o que os fazem chamar o curador que passava na região, Jesus. O encontro dos dois é o ponto culminante para que Maria decida deixar tudo para trás e seguir o Rabi. Em momento nenhum ela esclarece para alguém ou para si mesma o porque de seguir aquele homem, ela somente sabe que sua antiga vida não é mais o suficiente.

Filmes de Cristo optam geralmente por duas vias: a polêmica ou a fidelidade aos textos canônicos. Maria Madalena opta pelo caminho do meio. Evita polêmicas ao estabelecer um relacionamento essencialmente platônico entre Madalena e Jesus, ao estabelecer ela como uma figura frágil e ao mesmo tempo firme, mas jamais roubando o protagonismo do Mestre, humaniza a figura de Cristo, mas não nega ou sequer põe em dúvida sua divindade, nesses termos é um filme conservador. Por outro lado, é um filme que não se prende ao ar devocional e dogmático tradicional dessas narrativas. Os milagres são representador com menos solenidade, a clássica imposição das mãos, as frases de efeito, o clássico "tua fé te curou" são trocados pelo toque, o abraço, o olho no olho, o sorriso ou as lágrimas. Abundam os momentos contemplativos, as paisagens ermas e o silêncio, já as passagens bíblicas clássicas quando não desconsideradas são passadas brevemente quase com desleixo, a entrada em Jerusalem, a Ultima Ceia, até mesmo a crucificação são repassadas as pressas, mais para cumprir tabela do que para realmente preencher a história, provavelmente porque ao final do filme, fica claro que nada disso tem importância.

Talvez o ponto mais polêmico e melhor do filme seja o seu final. Já é clássica a narrativa de Maria como a primeira mulher a ver o Cristo Ressuscitado o filme a mostra como a única. E também a única a compreender a verdadeira mensagem do Mestre. É somente ela que vemos fazendo perguntas ao mestre, a única buscando-o em seus momentos de sofrimento silencioso, a única a realmente lhe fazer gestos de amor e misericórdia. Os homens, com destaque para Pedro e Judas, o vêem como um líder de uma revolução, cada um já fazendo sua própria imagem do Messias, mas nunca parando para ouví-lo. Eles vêem o Jesus que querem ver. Ao fim após a ressurreição Maria ainda tenta uma última vez explicar-lhes a mensagem de Cristo "O Reino do Céus está em nós", mas é rejeitada e quando Pedro lhe anuncia que eles irão continuar a espalhar a Mensagem, Maria retorque "A sua mensagem, não a Dele", na única grande cutucada que o diretor faz a toda a Igreja Cristã de base patriarcal.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Crítica: A Forma da Água

Chega certa época na carreira de um diretor que parece que ele se sente na obrigação de fazer um filme fofo. Foi assim com Scorcese quando filmou A Invenção de Hugo Cabret, Spielberg sentiu esse necessidade logo cedo com seu ET, fico imaginando quando essa necessidade imperativa de ser fofo no cinema vai acometer Tarantino, tamos aí no aguardo. 

De qualquer forma, essa é a vez de Guilhermo Del Toro, excelente diretor que já nos presenteou com o sensacional Labirinto do Fauno, nos divertiu com um pastiche de anime chamado Pacific Rim e vá lá, nos entendiou um pouco com Colina Escarlate. Agora ele chegou para encantar com um conto de fadas de época sobre a luta por um amor impossível. Todos os elementos estão lá, desde a ambientação de época, os anos 60 no caso, a trilha sonora, as referências a filmes clássicos, musicais antigos, de preferência, além dos personagens, todos essencialmente bons, mas vivendo a margem da sociedade que basicamente, os despreza.

Mas Del Toro é mais que isso e um filme seu não dificilmente se conteria apenas nesses elementos básicos. Elementos tais como a sexualidade. A nudez desponta em vários pontos da trama, assim como seus personagens não são apenas representações platônicas de sentimentos puros, mas são pessoas com seus desejos, não atoa sua personagem principal se masturba todo dia de manhã, seu melhor amigo, um artista gay chegando a terceira idade sente atração pelo vendedor de tortas. 

Outro elemento é a tensão crescente do filme, apesar de ser estruturado na forma de um conto de fadas o sentimento da ameaça é forte. A construção do vilão o Coronel Strickland, tem muito a ver com isso, pois o diretor se preocupa em apresentar as frustrações do personagem, por um lado humanizando-o, por outro tornando-o ainda mais ameaçador.

Somado a isso, ainda há alguns comentários a respeito de racismo, preconceito e claro a falta de empatia que nos faz ver o diferente sempre como algo monstruoso sem sequer tentarmos entendê-lo. Possivelmente essa é a grande metáfora do monstro, capturado na Amazônia onde era idolatrado pelos nativos é visto como um monstro pelo Coronel como uma aberração que deve ser eliminada o mais rápido possível. O filme claro vai demonstrar quem é o monstro real dessa história.

Guilhermo Del Toro fez um seus melhores filmes com esse A Forma da Água, um conto de fadas pra gente grande, um filme fofo, mas também com uma boa dose de violência gráfica, um filme sobre a força do amor, mas não dissociado de sensualidade. Se a Academia pretende premiar esse homem com um Oscar, com certeza chegou o momento. Tem minha torcida.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Os 10 anos de Breaking Bad


Há dez anos atrás Heisenberg e Walter White entravam na cultura pop para marcar época. Para mim passou batido, primeiro porque há dez anos atrás eu nem era de assistir séries, também passou batido nos anos seguintes, só depois da série já ter se encerrado e por recomendação de um amigo é que fui encarar as cinco temporadas da história do professor de química com câncer que se transforma num  maligno traficante de drogas.

Muita gente considera, meu amigo inclusive, essa como a melhor série de todos os tempos. É interessante pensar o que faz dessa série tão impactante para os fãs. Certamente um desse elementos é atuação fenomenal de Brian Cranston como Walter White evoluindo de um pacato, medroso e fracassado professor química e lavador de carros para um cruel assassino, sangue frio e temido chefe de tráfico Heisenberg. E seguindo a fórmula de sucesso de Conan Doyle, o personagem principal precisa de seu parceiro, esse é Jesse Pinkerman, personagem do qual vamos sentir pena, raiva, ódio, empatia, enfim uma miríade de emoções que cercam o parceiro de Walter, drogado, decadente, vivendo numa espiral de fracassos e a cada temporada ele tenta se erguer só para cair ainda mais fundo no poço escuro que é sua vida.

O drama não poderia estar completo sem o perseguidor implacável e o drama familiar, temos ambos reunidos num dos mais carismáticos e divertidos personagens da série Hank Schrader, implacável e competentíssimo agente da DEA, a divisão de combate ao narcotráfico dos Estados Unidos, também o tiozão do churrasco em casa, sempre tirando sarro, bebendo cerveja e fazendo piadas. Completando o drama familiar temos Skyler, esposa de Walter e única que conhece a vida secreta do marido, divida entre proteger o marido em nome da família e combater sua crise de consciência pelos crimes de seu marido. É através dela que vemos o quanto a personalidade de Walter vai se degradando ao longo dos episódios.

Os vilões da trama merecem um parágrafo a parte. A cada temporada temos um verdadeiro show na parte vilanesca da história, exceto na quinta. Tuco Salamanca, traficante mexicano, psicopata e a todo momento chapado, um dos personagens mais assustadores e loucos de todos. Seu exato oposto Gus Fringe, lidera a maior rede trafico dos Estados Unidos, sensacionalmente acobertados numa rede de Fast Foods chamada Los Pollos Hermanos, frio, calculista, sempre educado e elegante é um dos personagens favoritos da série, sua pose sempre ereta, seu vocabulário perfeito, seu sorriso elegante e olhos frios de assassino são uma imagens mais marcante da série, junto com a careca e cavanhaque de Walter White. Na lista ainda temos Mike, faz tudo de Gus, calado, mas mortal, frio e ao mesmo tempo vovô babão com sua netinha e por fim o resolve tudo Saul Goodman, advogado pilantra e fanfarrão, tão marcante que ganhou sua própria série.

A forma com que os criadores desenvolveram a série também é marcante. Walter é um gênio da química, mas sua caminhada para o mundo do crime não é fácil, pelo contrário é cheia de trapalhadas, algumas muito engraçadas, outras com consequências mais graves. Dramas familiares vão surgindo, bem como situações de violência extrema apresentadas hora de forma dramática, hora como humor negro, as decisões dos personagens hora te surpreendem, hora te enchem de raiva. Vários dos arcos têm finais frustantes, outros são sensacionais, de certa forma é uma série imprevisível. Situações absurdas também surgem para contrabalancear o hiper-realismo da série.

Também é importante frisar que o arco de evolução do personagem principal não é romantizado, somos colocados frente a um verdadeiro antiherói, em sua escalada no mundo do crime Walter White tomará decisões revoltantes, logo ele se torna de fato um vilão, ainda que os autores tenham minimizado isso com um final redentor, para mim infelizmente. 

Enfim, um dos grandes méritos de Breaking Bad é conseguir criar um elo verdadeiro entre o espectador e seus personagens, cada um deles nos parece real, em suas qualidades e defeitos. Some a isso um enredo esperto, falas marcantes e imagens icônicas e estão aí os ingredientes de uma série que gostando ou não ficará marcada na sua mente.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Crítica: Jumanji - Bem Vindo a Selva

Jumanji é um filme do qual eu não esperava gostar. Como era o melhor da programação do cinema aqui de Rio Branco, tirando Star Wars que eu já tinha visto, fui sem compromisso e sem nenhuma expectativa. E para minha surpresa adorei o filme. É aventuresco, é divertido, lúdico com clima de sessão da tarde para curtir com toda a família.

Minha maior preocupação era que o filme fosse uma repetição do original dos anos 90 com as tais atualizações para soar mais moderno. Bem, as atualizações estão lá, mas não é de forma alguma uma repetição da formula do filme original.

O novo Jumanji tem um pé inteiro na comédia e faz paródia com diversos clichês dos video-games, o próprio personagem principal vivido por Dwayne Johnson é uma, o Professor de faculdade fortão com pintas de Indiana Jones ou ainda a personagens de Karen Gillian que usa roupas minúsculas mesmo no meio da selva, além do coadjuvantes Kevin Hart e Jack Black interpretando um biólogo baixinho e um professor gordinho e são os responsáveis pelos melhores momentos de comédia do filme. 

O filme ainda faz referência a um clássico dos filmes adolescentes Clube dos Cinco uma vez que começa justamento quando um nerd, um esportista, uma patricinha e a garota esquisita da escola se juntam na detenção, acabam encontrando o jogo e são transportados para Jumanji, faltou só o bad boy que foi substituído pelo personagens de Nick Jonas como o jovem preso há anos dentro do jogo, numa referência ou homenagem ao personagem de Robin Willians no original. 

No fim, Jumanji - Bem Vindo a selva é uma aventura/comédia divertida e descompromissada, não há grandes aprofundamentos nos personagens ou drama, nem ao menos uma sensação real de ameaça. Até mesmo o vilão, que tinha potencial para ser bem mais assustador acaba sendo genérico e esquecível. O grande lance do filme é química entro os cinco personagens principais e como eles têm de descobrir aos trancos e barrancos sua função no jogo e nos fazendo rir horrores no processo.

Avaliação: ótimo

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Os melhores de 2017 segundo o Seringueiro Voador

Fechando o ano de postagens no blog bastante satisfeito devo dizer. Muito texto ficou por ser publicado, muitos começaram, mas terminaram no limbo dos rascunhos, ainda assim, foi o melhor ano do blog desde 2009. Ano que vem completamos um ano de blog e pretendo escreve ainda mais que neste ano. 

Olha, não sei se você é leitor fiel aqui ou está passando pela primeira e última vez, mas se for leitor constante, muito obrigado! Tentarei melhor ano que vem. 

Fim de ano é época propícia para relembrar tudo de interessante que aconteceu esse ano, mas que por uma coisa ou outra acabou passando batido, geralmente eu faço isso relacionado a música, área com a qual tenho mais afinidade em escrever e de fato a área que eu mais tenho acesso a novidades. Esse ano vou falar de música, cinema, literatura, televisão e tudo de legal que aconteceu no âmbito cultural ao qual eu tive acesso.

A lista que segue não tem pretensões de realmente dizer o que foi MELHOR no ano corrente, mas de tudo aquilo que eu gostei, sem pretensões absolutas aqui. É o que eu vi, ouvi e gostei e recomendo para você. Vamos lá?

Os melhores discos de 2017

Songs of Love and Death - Me and That Man

Projeto do lider da banda de Black Metal Behemoth uniu-se a um músico folck, ambos são poloneses, mas produziram um disco que nos leva diretamente ao interior dos Estados Unidos. Blues, country, rock'n roll de garagem está contido nessa pérola chamada Songs of Love and Death, as referências claras são Johnny Cash e Leonard Cohen. A beleza desse disco não pode ser resumida em meras palavras, tem que escutar.




Is this the life we really want? - Roger Waters

Já na casa dos setenta anos, trinta anos depois de seu último lançamento no estilo rock, Roger Waters volta com o seu melhor disco solo. A qualidade dessas canções é tão boa, que tivesse Mason na bateria e Gilmour solando na guitarra seria facilmente mais um disco do Pink Floyd, possivelmente o melhor desde The Wall, mas o mundo não é perfeito, a banda não retornou e ficamos mesmo com o melhor lançamento de Waters solo. 

Mas não só musicalmente o disco é bom, porque também é um disco político de um músico que não tem medo que assumir posições bem definidas, defender aquilo que acredita com unhas e dentes e cantar sua insatisfação, sua revolta com o mundo a sua volta. Sem firulas, sem metáforas, Waters diz o que quer dizer, cita nomes e xinga na cara! 

Não se faz mais músicos assim.


From the Fires - Greta Van Fleet

A melhor e mais legal revelação musical desse ano. O Greta Van Fleet vem na onda de bandas retrô que emulam o som dos anos setenta, esta no caso, uma nova versão do Led Zeppelin, que espanta  pela qualidade e similaridade das canções. Seja nos timbres do vocalista, na guitarra, no baixo, na bateria todos os elementos da banda repetem o Zeppelin a perfeição e isso em composições próprias e originais que parecem ao ouvido desavisado novas canções do Led Zeppelin.

Obviamente eles não terão futuro se somente se limitarem a repetir o Led, é preciso trilhar caminho próprio. Ouvindo From the Fires é possível identificar todo o potencial que a banda pode seguir no futuro. Uma banda para observar com atenção.


Pineal - Tagore

O disco é do ano passado, mas só escutei esse ano e como a turnê ainda tá rolando, então tudo bem, entra na lista. Aliás, vi três shows nesse fim de ano, um deles da Tagore num barzinho perdido em Pinheiros - SP num beco apertado, o lugar era minúsculo, o cheiro de cigarro era onipresente, foi um dos melhores shows que vi esse ano.

É uma banda difícil de descrever, mistura rock, pop e psicodelia ora soando como Luiz Gonzaga ora soando como Tame Impala. É excelente, não deixe de conferir.



Everything Now - Arcade Fire

O mais recente disco do Arcade Fire não superou seu antecessor, mas vá lá, é difícil chegar tão perto assim da perfeição, ainda assim é um disco notável. A proposta foi fazer um disco abordando tematicamente a cultura da imediatidade da internet e a insegurança da atual geração, nisso creio que eles conseguiram resumir bem a grande questão da juventude na canção Creature Confort, tematicamente a melhor do disco.

Musicalmente temos verdadeiras pérolas como Signs of Life, uma disco music dançante e a faixa título Everything Now com toques de ABBA. Merecem atenção também as delicadas e lindas canções Eletric Blue e We Don't Deserve Love. Um disco bonito e sensível.

Só perdoem a banda por Peter Pan. Todo mundo comete um deslize.

Gods of Violence - Kreator

Que disco senhores! É violento, é bonito, é empolgante, é trevoso, é meio ridículo em algumas letras. Enfim, é Heavy Metal! Esse estilo fantástico que consegue faz com que pessoas cantem músicas satânicas e ao mesmo tempo sejam moralistas e conservadoras na internet. 

Gods of Violence é daqueles discos que faz a gente querer bater cabeça e entrar numa roda de mosh depois de se entupir de cerveja barata usando uma camisa preta encardida, jeans velhos e coturno preto. Mais METAL que isso impossível. 

Se é sua praia não deixe de escutar essa belezura!

Motherwood

Essa banda brasileira de Black Metal caiu como uma luva para mim que até então tinha minha maior referência em metal extremo com toques de música ambiente no Burzum, que é aquele banda que a gente sempre escuta com a pulga atrás da orelha dada as posições políticas nazistóides de seu mentor Varg Vikernes.

Pois bem, o Motherwood bebe da mesma fonte e produz um Black Metal extremo, pesado e belíssimos repleto de passagens introspectivas, ao contrário do disco anterior, não convida ao mosh, mas à reflexão, à apreciação do som. Um excelente disco que mostra como está alto o nível do metal nacional. 

Lucifer Prometheus sun in aries 0º 0' 0'' - equinox - Lord Blasphemate

Nome grande né, pois bem esse é o novo disco do Lord Blaphemate, banda de black metal do Rio Grande do Norte, um dos melhores lançamentos em metal desse ano no Brasil. Num mesmo disco o caras mandam ver no Black Metal, Heavy Metal Clássico e até arrebentam num Prog Metal de 15 minutos lindo chamado "An Astral Journey Through of Kingdom of the Quliphots (Or the Kaballah of Satanas Panteu)". Ok eles precisam resumir esses nomes.

Mas a música é sensacional, eles são extremos, pesados, barulhentos pra caralho, mas também têm passagens belíssimas em piano, órgão, coral e até mesmo vocais femininos, até uns toques sinfônicos, ou seja é um disco de metal completinho. 

Aliás, só faltou um Power metal espadinha... ou melhor, não faltou não. Vá ouvir esse disco! 

Volcano - Temples

Essa banda produz um pop com fortes raízes na psicodelia retrô, trazendo de volta um som que remete às bandas dos anos 60. Ou seja, o som é viajado e dançante, você não sabe se sacode o esqueleto ou chapa na canção ou as duas coisas. 

Esse disco faz uma puta dupla com o pineal mencionado anteriormente. Recomendo!





Quietude - Os Descordantes

Mais é claro que eu vou falar da banda casa. Os Descordantes é coisa nossa, da terra, que aliás é o Acre, caso alguém não saiba. Musica romântica e sofrência nunca saem de moda e essa banda manda muito bem nos dois estilos, que frequentemente caminham juntos. 

Se você não se reconhecer em algumas das diversas desilusões amorosas cantadas pela banda, você pelo menos pode se emocionar e se embalar na música agradável e na poesia simples e objetiva das letras. Não deixe passar!



Melhores Discos ao Vivo

Eu adoro discos ao vivo, o maior momento de um banda é quando ela mostra seu potencial no palco com a energia e a empolgação dos fãs a sua frente. Gravar um bom disco ao vivo é um arte de fato, pois é necessário uma execução impecável e enérgica por parte da banda, carisma por parte de seu frontman  e obviamente o retorno desses dois elementos na forma como o público reage a música e tudo isso tem que ser muito bem captado na gravação. Então vejamos quem mandou bem esse ano:

Ghost - Ceremony and Devotion

Neste álbum ao vivo o Ghost demonstra que suas composições não funcionam apenas no estúdio, mas também são excelentes ao vivo. Verdade que o foco do disco ficou mais no terceiro lançamento Meliora, mas também músicas excelentes de Opus Eponymous e Infestissuman dão as caras num disco que acaba sendo também uma bola amostra de todo o trabalho da banda.






Blind Guardian - Live beyond the spheres

Eis uma banda que sempre manda melhor ao vivo, seu primeiro disco ao vivo Live ainda é para mim o melhor disco de metal ao vivo que já ouvi (sorry Maiden), o Carisma do vocalista, a execução perfeita da banda, soando mais pesada que nos discos de estúdio e a resposta insana dos fãs que chegam a cantar trechos inteiros das canções tudo isso perfeitamente captado no som.

Nesse segundo disco a banda repete todos esses elementos apenas dando uma atualizada no repertório com canções dos discos mais recentes, todas soando muito, mas muito melhor ao vivo. Se você não conhece o Guardian, minha dica, comece pelos discos ao vivo.


Massacration - Live Metal Espancation

A edição desse disco tá horrível o vocalista fala com a plateia ao final de uma música e repete a mesma coisa no início da outra, não sei se isso foi proposital dada ser uma banda de metal caricata, mas isso não tira o brilho e energia das canções toscas da melhor banda de metal de todos os tempos quando executadas ao vivo.

O Massacration começou como uma piada e ainda é, mas é daquelas que a gente não cansa de ouvir.




Rammstein - Paris

Disco gravado ao vivo em Paris dá uma boa mostra de toda a carreira do Rammstein e seu metal industrial como é chamado a mistura de heavy metal e música eletrônica promovida pela banda. Tudo isso soa muito bem ao vivo. Disco excelente para quem ainda não conhece a banda!








Os melhores filmes e séries

Bladerunner 2049  por Dennis Villeneuve 

Eu amei Star Wars, mas tenho que dizer que o prêmio de melhor filme do ano vai mesmo pra Blade Runner, filme aliás que flopou injustamente. É grande, é arrastado, mas é lindo, uma visão poética e devastadora do futuro onde máquinas são mais humanas e sentimentais que os próprios humanos. O filme resgatou muitos conceitos trabalhados no livro que o primeiro filme simplesmente descartou, como a relação entre homens e máquinas e o valor das coisas naturais, orgânicas.

E que final lindo aquele. Tô admirando cada vez mais o trabalho do Villeneuve e que venha Duna! 

Silence  por Martin Scorcese

Fato é que o melhor de Scorcese é quando ele aborda a banda podre da sociedade, mas o diretor tem uma sensibilidade para o lado espiritual que não pode ser ignorada. O filme aborda fé, sofrimento, dor e silêncio de Deus perante tudo isso. A solução perpassa a fé, mas é a mais humana possível. Ninguém vai sair convertido ou desconvertido após um filme de Martin Scorcese, mas se assistir corretamente e com atenção vai sair com uma ou duas questões para reflexão na mente.

Thor Ragnarok - Taika Waititi

Muita gente destetou esse filme. Geralmente fãs das HQs do heroi. Bem eu nunca li a HQ e devo dizer que acho muito injusta as críticas a esse filme. Era fato que Thor não tava dando certo no cinema, eram os filmes mais fracos, o ator não tem o tino para drama e nem Antonhy Hopkins tava no seu melhor no papel. Logo o filme abraça o seu próprio absurdo e sai um ótimo e divertido filme de humor. Eu me divertido horrores assistindo. 

Poesia Sin Fin por Alejandro Jodorowski

Todo filme de Alejandro Jodorowski é bem louco, agora ele resolveu recontar a vida dele em filmes. Poesia Sin Fin aborda sua juventude no Chile quando decide a contragosto da sua família que será poeta. Após um rompimento traumático com seu Pai ele decide não só escrever poesias, mas viver a poesia.

O filme é bem surrealista, os personagens são caricaturas de pessoas que realmente existem e passaram pela vida de Alejandro, muitos recursos teatrais são utilizados em cena e claro, tem muita poesia.

É um filme bonito e estranho e você fica sem saber muito bem como se sentir após assistir porque a beleza e o bizarro parecem sempre caminhar juntos com Jodorowski. 

Star Wars VIII Os Últimos Jedi 

Ainda não entendi por que o plural nesse filme, a Rey já é Jedi? Não precisa mais treinamento? A Força pega aponta pra um e pronto, Jedi. Enfim, se o primeiro filme ensaiou criar uma nova mitologia com um novo Império, um novo Imperador ou Sith ou coisa que o valha, um novo Vader, bem como uma nova escolhida pela força, uma nova aliança rebelde e tudo mais na velha estrutura Star Wars esse segundo filme veio pra bagunçar tudo, primeiro não explica quase nenhuma questão do primeiro filme e as questões que explica são de uma simplicidade exasperante, descarta vários personagens chave e trata a nova mitologia criada no Despertar da Força como lixo.

E isso é ótimo! Danem-se as repetições, agora o próximo filme será o mais imprevisível de todos. Para mim um grande acerto nesse filme e também ao mexer com as emoções daqueles que já admiravam a velha trilogia. Não tem momento mais bonito em toda a série do que a conclusão do arco de Luke Skywalker, aquilo foi perfeito pacas.

CORRA por Jordan Peele

Esse filme sensacional foi uma das surpresas do ano! Terror psicológico, humor nervosa e muito sarcasmo. O filme transforma a questão do racismo em um mote de filme de terror. Com um crescendo no suspense de tirar o folego e uma conclusão realmente imprevisível. Um filme que merece muito ser visto.

Twin Peaks - Terceira Temporada

Todos os críticos são unânimes em atribuir a Twin Peaks, quando de seu lançamento no inicio dos anos 90, a causa de uma revolução na forma como a indústria do entretenimento enxergava as séries de TV. Agregando diversos elementos de suspense, terror, comédia e drama numa história de uma investigação de assassinato que começa simples e deságua no sobrenatural numa trama complexo e psicológica, David Lynch e Mark Frost mostraram todo o potencial da TV.

Vinte e cinco anos depois Lynch retornou à pequena cidadezinha, agora para narrar uma batalha entre o bem e o mal, reavivar memórias nostálgicas e bagunçar nossa mente de novo com mais perguntas sem resposta. Unindo na série todo o seu talento para o humor e o bizarro, Twin Peaks tem tudo o que Lynch pode oferecer de bom, melhor série do ano!


É isso pessoal!

Minha lista bem pessoal do que eu mais gostei do ano passado. Obrigadão a você que me leu durante esse ano. Estaremos de volta em 2018, escrevendo ainda mais!




domingo, 12 de novembro de 2017

From the Fire - Greta Van Fleet

O Greta Van Fleet, banda de rock americana formada em 2012 pelos irmãos Josh Kiszka, Jake Kiszka, Sam Kiszka, além do baterista Danny Wagner, foi uma das grandes revelações deste ano. Primeiro por seu EP de estréia "Black Smoke Rising", de 2017, onde a banda mostra uma hard rock poderoso, cativante e uma semelhança absurda com o Led Zeppelin. Dos riffs de guitarra, perpassando as viradas de bateria, as notas de baixo e principalmente os timbres vocais de Josh, assustadoramente parecidos com o do jovem Robert Plant. 

A banda soa com o Led dos primeiros anos, particularmente o dos discos Led Zeppelin II e III, mas a força e qualidade das canções é tão grande que não parece uma cópia barata, a sensação é mais como ouvir material inédito do próprio Led. Exceto a canção título, que é um ponto fora da curva, todas as demais, a saber: "Higway Tune", "Flower Power" e "Safari Song" são puro Led Zeppelin redivivo. 

Recentemente a banda lançou um segunde EP "From The Fire", este duplo, trazendo as quatro canções já apresentadas e quatro novas. Neste novo lançamento a banda expande seus horizontes trazendo mais elementos para sua música. "A Change is Gonna Come", por exemplo, traz um pomposo e belíssimo coral gospel numa balada hard rock. Assim como Meet On The Ledge, outra balada com corais pomposos, traz notas de rock setentista.

Eles parecem estarem inseridos nessa leva de artistas com sonoridade retrô que enxergam o futuro do rock'n roll dando uma cuidadosa e talentosa olhada para o passado. Nada mais justo. Sempre é possível explorar o passado em busca do futuro sem cair na cilada do plágio. "From the Fire" indica que a banda tem habilidade suficiente para crescer ainda mais. 

Ainda é cedo para dizer se eles são de fato o novo Led Zeppelin ou se irão continuar o trabalho da onde o Led o deixou no passado. Mas  uma única audição desse disco é o suficiente para mostrar que essa banda merece sua atenção. Um nome para prestar atenção no futuro e que tem potencial de crescer horrores no futuro, traçar um caminho parecido com o Ghost tem tomado. Eu particularmente torço para que seja assim.

Se você gosta de rock, se você gosta de Led Zeppelin, se você gosta de boa música, não deixe o ano terminar sem conferir. Tá nas plataformas de streaming. Corre lá.



segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Somos como o sonhador que sonha e então vive dentro do sonho


Nunca fui fã de Twin Peaks até este ano quando resolvi enfim assistir a série para poder acompanhar os acontecimentos da recentemente lançada terceira temporada e já considero a melhor série do ano e pessoalmente a melhor série que já assisti. David Lynch e Mark Frost, criadores da série são geniais e Lynch especialmente ao dirigir todos os espisódios desta terceira temporada como um enorme filme.

O que fascina em Twin Peaks é que por um lado a série é uma novela, tal como aquelas da globo ou ainda como a série Game of Thrones, há mocinhos e vilões, tramas e traições, dramas e romances, mistérios e reviravoltas. Por outro lado desafia padrões de narrativa ortodoxos com personagens estranhos, silêncios constrangedores e situações oníricas que fazem duvidar da noção de realidade. Twin Peaks é um obra de fantasia, terror, ficção científica, comédia, tudo ao mesmo tempo. Difícil de definir, mas fácil de amar.

A história que começa como uma noveleta de suspense policial onde o agente especial Dale Cooper do FBI vai à pequena cidade de Twin Peaks solucionar o assassinato de Laura Palmer, a garota mais popular do colégio, no maior clima de O Silêncio dos Inocentes, e acaba evoluindo para uma trama sobrenatural em sua segunda temporada e nessa terceira temporada alcança seu ápice numa clássica narrativa épica do bem contra o mal. Claro, que novamente Lynch vai deturpar toda a narrativa colocando o personagem principal preso dentro do próprio corpo com amnésia, enquanto o vilão caminha livre sobre os Estados Unidos, os personagens secundário ganham mais relevância e recebem o encargo de levar a história adiante, outras várias subtramas se desenvolvem em paralelo sendo que nem todas terão uma conclusão no final, de fato, muitas delas sequer precisarão de uma conclusão.

E, claro, há o episódio 8 que é um marco, uma enorme quebra na linha narrativa, um flashback em preto e branco de uma hora quase sem diálogos onde as mais diversas imagens vão surgindo na tela, todas loucas e belíssimas parecendo alternar entre realidade, ilusão e sonho ou pesadelo, informações preciosas são reveladas, mas não explicadas abrindo possibilidades para as mais diversas teorias.

Falando em teorias, ao final após nos levar ao longo de toda a narrativa e nos ludibriar com a ilusão de uma conclusão para série, Lynch inverte toda a lógica de novo e nos faz questionar a própria realidade do que ocorreu ao longo dessas três temporadas de Twin Peaks num final brilhante, mas que deixa aquela sensação de vazio no espectador, vazio que várias teorias pipocando na internet já estão tentando preencher.

É a questão que uma onírica Mônica Bellucci levanta em determinado momento da narrativa: "Somos como o sonhador que sonha e então vive dentro do sonho. Mas quem é o sonhador?". De fato, toda Twin Peaks parece um sonho, a quantidade de narrativas soltas e inconclusas, deslocadas da série que você vai encontrar nessa temporada parece reforçar ainda mais essa impressão. "Vivemos dentro de um sonho" diz Dale Cooper em determinado momento. Assistir Twin Peaks é isso, é como sonhar, nem tudo precisa ter uma explicação ou conclusão, mas é uma experiência que vale a pena ser vivida.

Se essa terceira temporada de Twin Peak foi o fechamento da carreira de David Lynch então ele o fez com chave de ouro.