quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Jack The Joker - Mors Volta

 Metal Progressivo é o nome dado ao subgênero que uniu as experimentações musicais do rock progressivo dos anos 70 com o peso e distorção do heavy metal dos anos 80. Nessa categoria estão juntos bandas com sons tão díspares quanto Symphony X e Opeth, clássicas como Dream Theater e inovadoras como Mastodon. O desafio é agregar ao metal elementos como o jazz, folk e música erudita e daí sair um resultado coeso, o que nem sempre ocorre, fazendo com que o estilo seja conhecido principalmente pelos seus excessos. Porém, o estilo também conta dentre suas características com a habilidade técnica de seus músicos, além da criatividade e inovação de seus compositores.

O paradigma do estilo foi definido nos anos 90 por bandas dos Estados Unidos e Europa, embora nunca tenha sido um estilo massificado, conquistou seu nicho de fãs e influenciou diversas bandas ao longo dos anos. O Brasil não chegou a produzir um grande nome no estilo, embora características do prog estejam presentes nas duas mais famosas bandas nacionais Angra e Sepultura. É certo que há uma grande quantidade de bandas de progressivo de inquestionável qualidade, mas ainda assim não há um grande representante nacional do estilo. Lacuna que pode ser preenchida com o trabalhando da banda cearense Jack The Joker.

Será cedo para dizer que a banda está aí para suprir essa lacuna? Após o ouvir o segundo e mais recente disco da banda, creio que não. 

"Jack The Joker" é um quinteto surgido em Fortaleza, lançou seu debut "In The Rabbit Hole" em 2014 e surpreendeu tanto pelo virtuosismo técnico de seus membros quanto pela altíssima qualidade das composições: intrincadas, complexas, ora mais extremas e pesadas, ora mais suave e acústicas, mas sempre coesas, sem se perder na virtuose de seus músicos. A banda vem divulgando seu trabalho principalmente através da internet, seus discos estão disponíveis em plataformas de streaming, youtube, download, venda física, além de intensa atividade no facebook oficial onde divulgam seus shows, lançamentos e vídeos.

Dois anos após a estreia, a banda lança seu segundo disco "Mors Volta". Dizem que o segundo disco é um teste. Os primeiros discos, em geral, são reuniões de composições que foram amadurecidas ao longo dos primeiros anos de ensaio e apresentações de uma banda, já o segundo chega com menos tempo e mais exigência para compor um disco inteiro, fechado e redondinho para lançamento. É quando a banda mostra a que veio, mostra seu poder de composição e capacidade de manter ou até superar a qualidade inicial. Jack The Joker passa no seu teste? Com louvor.

"Mors Volta" é superior a seu antecessor, mostra um banda com sua identidade definida, mas sem abandonar a criatividade com composições ainda mais coesas. A banda escolheu investir em peso e "groove" que permeiam todo o álbum dando um ar "jam" a certos trechos e chegando a ser quase dançante na canção "Brutal Behavior". É difícil dizer, no meio tantos músicos talentosos, quem se sai melhor, como os guitarristas Lucas Colares e Felipe Facó, milimetricamente técnicos ou a capacidade do vocalista Raphael Joer que consegue ir do gutural ao agudo, mas é preciso destacar a cozinha formada por Vicente Ferreira, cuja bateria executa dos movimentos complexos ao simples com precisão e o baixo de Lucas Arruda que injeta groove com seus slaps nos momentos certos de cada canção.

O disco impressiona desde seu início com as viradas de bateria que lembram muito a introdução de "The Wolf is Loose" do Mastodon, mas que segue numa pegada que lembra essa fase mais pesada de prog metal que o Symphony X vem mostrando desde "Paradise Lost", com a diferença que o Jack the Joker tem mais ritmo e menos interesse em compor baladas. O que não quer dizer que a banda não tenha um lado mais melódico, se em seu primeiro disco já haviam mostrado bom gosto ao enxertar instrumentos acústicos em algumas composições, em "Mors Volta" ela se guarda para o final. "Venus & Mars", canção de encerramento é a mais ambiciosa do disco, tem 24 minutos de duração e busca um síntese de toda a musicalidade apresentada pela banda: peso, groove, jams instrumentais, virtuosismo correndo solto, somados à adição de trechos acústicos belíssimos com flautas e violões construindo momentos contemplativos na cação, sem dúvida a melhor composição do disco. Tudo isso embrulhado numa capa cuja arte me remete ao primeiro disco do Black Sabbath, além de uma altíssima qualidade de gravação, basta uma audição atenta ao disco e todos os instrumentos se mostram claros e límpidos aos ouvidos, ressaltando o talento de cada músico.

Jack The Joker é uma banda que faz bonito e tranquilamente pode ser colocada ao lado dos grandes nomes do metal progressivo como Dream Theater, Opeth, Symphony X, etc. sem ficar devendo em nada aos clássicos. Só o que falta agora é o mundo e os metaleiros do Brasil conhecerem esse nome promissor do metal brasileiro.


Ouça no Spotify:



domingo, 20 de novembro de 2016

Pink Floyd: os primeiros anos

O Pink Floyd é uma banda de várias facetas. Começou em meados dos anos 60 carregando o nome de dois blues mans, porém fazendo um som psicodélicos que misturava rock, jazz, o próprio blues e várias outras viagens sonoras inclassificáveis. Eram guiados pelo gênio de Sid Barret e ao longo de seus primeiros anos lançaram uma série de materiais que não entraram na discografia oficial da banda.

Isso tudo foi antes da fase mais pomposa da banda, que compreende o lançamento de The Dark Side of the Moon à The Wall basicamente, época em que o Floyd se tornou uma máquina de lotar estádios e fazer dinheiro. Época também, dos show grandiloquentes, cheio de efeitos e luzes, que tiveram sua representação máxima nos shows megalomaníacos de The Wall, uma turnê que praticamente acabou com a banda. Essa fase se tornou o rosto do Pink Floyd para o mundo.

A época anterior, entretanto, foi bem diferente, shows pequenos clubes, menos dinheiro e menos efeitos, mas muita música e principalmente muita viagem inspirada em alucinógenos e criatividade. Foi um época de composições mais curtas, mas nem por isso menos inspiradas. Essa fase é que o está retratado num recente box lançado pela banda, que também conta com uma versão para os serviços de streaming.

Não sou muito fã desses lançamentos caça niqueis
, mas esse é bastante interessante, por ser completo e conter muitas músicas fora da discografia oficial que não são exatamente fáceis de encontrar por aí. Abrange toda a época do inicio da banda até o disco Obscured By Clouds, anterior a Dark Side, ou seja, toda a fase menos famosa da banda. É muito bacana ouvir raridades como Embryo, Point Me At The Sky, as músicas que a banda compôs para um filme chamado Zabriskie Point, além de primeiras versões como Nothing, prévia de Echoes. Um perfil do Pink Floyd antes de ser o Famoso Pink Floyd.

Recomendo.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Música feita de sons e silêncios ou minha homenagem a Leonard Cohen

Leonard Cohen 1934 - 2016
A primeira vez que ouvi a música de Leonard Cohen foi num domingo de manhã, era cedo, estava nos meus afazeres matinais, preparar café, regar plantas, essas coisas... e geralmente gosto de fazer isso ouvindo música, nesse em dia em particular, abri meu aplicativo de streaming e decido ouvir algo que nunca tinha ouvido antes,  um disco de Leonard Cohen, cantor de quem já tinha ouvido falar, mas nunca tinha escutado. Ouvi o disco Can't Forget: A souvenir of the Grand Tour, disco ao vivo de 2015 com registro de vários shows sua última turnê. Ao final da audição, óbvio eu já amava o disco, automaticamente, já tinha virado admirador do músico e por fim, me recriminei por ter demorado tanto tempo para conhecer o trabalho do cantor.

Isso não aconteceu há muito tempo, foi nesse ano, na verdade, faz poucos meses. Conheci Cohen já aos 45 do segundo tempo de sua vida, de lá pra cá já dei uma boa vasculhada na discografia do cara, facilidades da internet, a pesquisa, obviamente, corroborou a premissa inicial, eu adoro a música de Leonard Cohen. Mas por que gostei tanto dessa música? Não sei, acho difícil dizer o que me faz gostar tanto de determinada música. Nesse caso específico, creio que foi a voz marcante de Cohen, grave, forte, seu estilo meio cantado, meio recitado de suas letras, o bom gosto harmônico de suas canções, o minimalismo nas composições, mas a principal característica que identifiquei na sua música, o uso do silêncio.

Canções são compostas por sons, óbvio, existem aquelas construídas em camadas e camadas de sons que se sobrepõem, sem parar até o final, sem espaços vazios, sem silêncios, mas existe outro tipo de canções que usam o próprio silêncio em sua composição. Nesse tipo o que não se ouve é tão importante quanto o que se ouve, o silêncio é tão importante quanto a canção, talvez porque o silêncio ressalte a beleza da harmonia que está sendo executada, o silêncio aqui serve como um foco, que não nos deixa perdidos num mar de sons, mas nos orienta e guia através aquela determinada harmonia que está sendo executada, ressaltando sua beleza.

Trago um exemplo para ilustrar minha reflexão, existe uma composição do King Crimson chamada Trio presente no disco Starless and Bible Black, que foi gravada num improviso de melotron, baixo e violino ao vivo, a música está creditada aos três membros, que efetivamente tocam na composição, mais Bill Bruford, o baterista, embora não haja bateria ou qualquer tipo de percussão na música, entretanto a banda considerou que sua decisão de não tocar foi crucial para o resultado final da composição, logo, o silêncio da bateria foi tão importante quanto os sons dos demais instrumentos.

Música feita de sons e silêncios, assim vejo a obra de Leonard Cohen. Em 94 ele foi ordenado monge budista e segundo li recebeu o nome Dharma de Jikan, que quer dizer "silencioso", muito apropriado, se isso for verdade.

Falando em silêncio, o homem faleceu ontem, dia 10 de novembro de 2016. Ontem o homem silenciou para sempre,  não sem antes deixar mais um disco You Want it Darker, escute-o e veja, lá estão os sons e os silêncios que Cohen deixou de presente pra nós.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

HOLY LAND 20 Anos

 O ano de 2016 marcou o aniversário de um dos meus discos de metal brasileiro favoritos, Holy Land, o segundo disco do Angra. A banda, surgida em 1992, pegou o embalo da vertente metal chamada Power Metal, um estilo mais acelerado e limpo de heavy metal, com vocais mais melódicos e mais agudos, algumas banda adotavam um tom mais épico em suas composições, outras, flertavam com toques de música clássica, dentre esses últimos, estava o Angra.

A época formado por Andre Matos, vocal, Rafael Bittencourt e Kiko Loureiro, guitarras, Luis Mariutti, baixo e Ricardo Confessori, Baterias, a banda tinha acabada de encerrar a turnê de seu primeiro disco, Angels Cry. O primeiro disco, aliás, já foi por si só uma grande conquista da banda, power metal com toques de música clássica e que gerou o primeiro, e maior hino do Angra até hoje, Carry On.

Quando a banda começou a pensar em seu segundo disco, decidiram, ao invés de repetir a fórmula de seu primeiro disco, inovar mais dentro de seu som e buscaram, nas sonoridades regionais brasileira a inspiração para construir sua segunda obra. E o fizeram com sucesso, tendo em vista que ainda hoje, com oito discos na sua discografia, Holy Land continua sendo um dos grandes marcos da banda. Mas não vou me alongar na história do disco ou na sua importância no contexto do heavy metal nacional, essas informações podem ser encontradas facilmente na internet.

Holy Land não foi o primeiro disco que escutei do Angra, conheci a banda através do seu segundo disco ao vivo Rebirth Wolrd Tour de 2002, nessa época já havia ocorrido a cisão na banda, seu vocalista novo era Edu Falaschi, que possuí um estilo vocal bem diferente de seu predecessor Andre Matos. Ainda assim, era a primeira banda de heavy metal brasileira que eu conhecia, não demorou até que eu fosse atrás de sua história e descobrisse que aquela banda tivera uma formação diferente no passado. Ao pesquisar esse passado é claro que gostei imediatamente de Angels Cry, Fireworks com seu estilo mais direito e sujo demorou um pouco mais para me agradar, mas foi ao ouvir Holy Land, que meu queixo caiu no chão.

Certamente o Angra não era a primeira banda de rock a misturar elementos brasileiros em suas composições, aliás no mesmo ano de Holy Land, 1996, o Sepultura lançou um disco também histórico Roots que buscou influência na música indígena. Mas ainda antes disso muitos artistas trouxeram a música brasileira para o rock, ou por outro ponto de vista, trouxeram o rock para a música brasileira, Mutantes é uma banda que me vem imediatamente à cabeça com sua mistura de rock e baião na canção Dois mil e Um, Novos Baianos também fizeram essas experimentações, enfim uma pesquisa revelará vários nomes, mas eu não os conhecia a época, de modo que lá nos meus treze anos a mistura de sonoridades afro-brasileira em Holy Land era inédito para mim e quando ouvi achei tudo fantástico.

Mas não é apenas na sonoridade que Holy Land mostra sua identidade brasileira, toda a arte do disco é baseada nesse conceito, suas letras, sem pretensões narrativas ou rigor histórico, falam da descoberta do Brasil, de navegações, aventuras rumo ao desconhecido e até mesmo dos horrores do confronto étnico causado pela descoberta das novas terras. A arte gráfica simula uma carta marítima do século XV com uma rosa dos ventos colorida sobreposta a imagem, enfim todas as artes do disco estão direcionadas ao uma verdadeira homenagem da cultura brasileira e quando você tudo aquilo pra tocar no som, ainda assim, é também heavy metal, mas um heavy metal que banda de lugar nenhum outro lugar do mundo poderia ter feito, nem um Iron Maiden, ou Judas Priest ou Metallica ou qualquer outro nome poderia fazer, era um metal tipicamente brasileiro, Cosa Nostra, Made in Brazil.
Ao apertar o play ouvimos um som de pássaros na floresta seguido por um canto gregoriano renascentista europeu, é Crossing a abertura do disco, baseado numa obra de Palestrina, compositor italiano do século XVI, essa introdução de ar clássico é breve, pois é na sequencia já começa o disco pra valer, Nothing to Say, o peso vem somado a um suingue diferente, quase dançante, o foco principal é seu marcante riff de guitarras e as levadas de bateria, somados a um enxerto de flauta bem brasileiro e um interlúdio semi clássico de teclados. A letra do ponto é o ponto de vista do conquistador europeu que relembra atrocidades cometidas na conquista das novas terras, em seu encerramento a música se entrega totalmente a um maracatu e logo percebemos que o que estamos ouvindo é um tipo totalmente não ortodoxo de metal.

Em Silence and Distance temos uma visão poética dos aventureiros que lançam ao mar, começa e termina de forma belíssima ao piano, o peso se encontra no centro na canção, mas é ritmado por batidas nada convencionais para o metal, nota-se claramente a influência da música afro nesse disco, principalmente na inspiração dos ritmos que guiam as canções.  A letra é simplesmente linda e inspiradora, em mim, particularmente, dá vontade de pegar as coisas e viajar para lugares novos, em particular, e move muito esse trecho:

“Now let me go
Away across the sea,
The waves can't be as high
As they pretend to be”

Se até aqui, meu queixo já estava bastante baixo com esse disco, é na canção seguinte que ele foi ao chão e determinei que esse seria meu disco predileto do Angra, Carolina IV, a narrativa de um navio que sofre uma tempestade no mar levando a vida de toda sua tripulação inicia ao som de tambores africanos e vozes entoam, em português, uma louvação a Iemanjá, em inglês, o personagem principal da história conta a história do navio que parte em busca de novas terras, mas tudo que encontra é um fim trágico que leva o personagem a das frases mais forte da música:

“Human dreams have sometimes cost their lives,
All their lives dreaming”

O riff da música é um speed metal, ou seja, mais aceleradinho, mas no meio há um interlúdio onde a canção vira uma verdadeira sopa de referências, todas muito bem amarradas de forma que tudo fica bastante coerente, há enxerto da música Bebe de Hermeto Pascoal, um dos músicos brasileiros mais cultuados do mundo, exceto por brasileiros, inserções de piano clássico e um solo de corda, que vou ser sincero ainda não sei dizer se é violino ou violoncelo, tudo para desaguar numa orquestração que traz de volta o speed metal encerrando a história do malfadado Carolina IV, e no fim de tudo voltamos ao maracatu inicial e a música encerrar com sua louvação a Iemanjá. Uma verdadeira epopéia conceitual de 10 minutos de duração.

A faixa título Holy Land tem uma poesia meio abstrata, a mim parece uma declaração de amor à terra, toda música é baseada num piano tocado no ritmos do berimbau, uma releitura de ar clássico das canções de capoeira, acompanhado de percussão no mesmo ritmo, o metal dá uma olás ao longo da canção, mas aqui, a grande estrela é o piano. A próxima canção The Shaman tem a história de um pajé tentando trazer alguém de volta a vida, seu maior destaque e a fala, também em português de um verdadeiro pajé falando sobre ervas medicinais.

Make Believe é a estranha no ninho, principalmente por não haver nenhuma referência a musicalidade brasileira ou ao conceito principal do disco, uma balada açucarada típica do metal melódico, sua letra trata de sofrência para sertanejo nenhum botar defeito. Aliás, o solo de guitarrada ao final da canção é sensacional, daqueles de fazer air guitar. É também um dos clássicos do Angra, dada sua beleza, inclusive ganhou um clipe bastante lisérgico.


Z.I.T.O. é um dos grande mistério do Angra, já que ninguém sabe exatamente o que significa, corre uma lenda que é o apelido dado a um jovem que vivia pelas cercanias da chácara onde a banda se recolheu para a pré produção do disco e foi pego em situação embaraçosa. A banda nunca confirmou isso, mas usam esse trecho da música como pista:

“Like a teenager discovery
What's more delightful than this?”

Enfim, vá se saber.

O disco chega sua conclusão com duas canções que não podiam ser mais diferentes uma da outra, Deep Blue é dramática e grandiosa, órgãos bachianos, interlúdio gregoriano terminando num epic metal  e Andre Matos carregando nos agudos. As letras são um poesia sobre a solidão nos oceanos, enfim tudo é grandioso, com ares de clímax, mas nem nisso a banda queria soar previsível e o disco termina da forma mais frugal possível, Lulaby for Lúcifer nada mais é que um voz e violão do diálogo entre um abutre e um homem, aparentemente moribundo, por um pedaço de carne, a música é acompanhada pelo som ambiente de gaivotas na praia, som esse que encerra o disco.

Angra 1996 da esquerda para direita: Ricardo Confessori, Rafael Bittencourt, Andre Matos, Kiko Loureiro e Luis Mariutti



Holy Land foi e continua sendo um disco muito importante para mim e considero de verdade um dos grandes momentos do metal. Para comemorar os 20 anos do disco tanto o Angra quanto o vocalista Andre Matos estão fazendo turnês comemorativas nessa segunda metade de 2016. Uma pena morar tão distante do eixo cultural do país, mas sinceramente espero que tragam ao menos um dessas turnês para o Acre, até porque um disco tão brasileiro quanto Holy Land merece ser comemorado em todos dos cantos do país. 

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Esquadrão Suicida é bom, mas tem defeitos.

Esquadrão Suicida é um filme bom, mas com defeitos. É entretenimento, básico, raso e divertido pacas. Seus carros chefes, obviamente Pistoleiro e Arlequina esbanjam carisma em seus personagens, destemidos e divertidos, mas com insinuações de profundidades trágicas em seus personalidades, Pistoleiro o pai em busca do amor da filha, Arlequina a dependência emocional doentia de seu amante coringa. A história é basicamente regimental, violões, ameaça ao mundo, envolvimento do governo americano, reuniões ultra secreteas, raio azul e explosões grandiosas em CG, diverte e satisfaz. 

Os defeitos do filme estão em seu roteiro, onde temos um grupo de personagens onde boa parte deles tá lá só pra completar o time, Crocodilo, Katana, Capitão Bumerangue e Amarra praticamente não têm personalidade na história, não gera empatia e você, basicamente, não dá a mínima pra eles. El Diablo já foi contemplado com um arco completo de história, personagem silente, visual estilizado convivendo com o peso de uma tragédia pessoal sobre os ombros é um personagem que encontra sua redenção no final.

Amanda Waller é a típica chefona, durona, emburrada, fdp de marca maior, em interpretação perfeita de Viola Davis, você adora ela, a não ser que ela fosse sua chefe. Rick Flagg é o tipico herói americano, coragem, bravura, honra, amor, é dele o drama amoroso da história, ama a vilã, tem confrontar seus sentimentos com seu senso de dever e blá blá blá, aquela velha história, você já viu esse filme antes. 

E temos, claro, não dá pra deixar de citar, Coringa, Mister J, a nova encarnação do palhaço vestindo roxo, Jared Leto atuando mandando bem no persoangem, embora nao faça jus a todo aquele hype em torno do "método", enfim, ótimo personagem, totalmente subutilizado na trama, serve pra explicar a origem e os dramas de Arlequina, mas só. Aliás insistiram em botar ele na trama principal, pura jogada de marketing, ele não faz diferença alguma, não agrega nada à história. Merece o antagonismo principal em algum próximo filme da DC, o novo solo do Batman quem sabe.

Nota: Ben Afleck ainda não me desceu como Batman/Bruce Wayne, mas enfim...

Acho que temos já um universo ficcional da DC mais estruturado após esse filme, minha opinião, você vai gostar do que vai ver. Carece um pouco mais de cuidado nos roteiros, mas isso pode ser arranjado, elementos para fazer um Suicide Squad 2 fenomenal não faltam. O Esquadrão é uma pedra bruta que precisa ser lapidada para virar uma joia. 

domingo, 24 de julho de 2016

Opinião: Stranger Things


Stranger Things, mais recente série do Netflix, já é um sucesso instantâneo na internet, quase uma unanimidade. Acompanhei a série essa semana e me sinto compelido a seguir nessa onda, a série é fantástica. Uma grande homenagem ao cinema de aventura, ficção científica e terror dos anos 80, recheada de referências ao terror de Stephen King, ao cinema de Steven Spielberg, além da cultura pop daquela década em geral, mas vai além disso, é também uma ótima história. 

A trama bem amarrada leva você de gancho em gancho através de oito episódio a decifrar o mistério central através de três narrativas: a história de aventura das crianças, a história de terror dos adolescentes e o drama/suspense dos adultos, todos conectados pelo desaparecimento de Will Byers. 

As crianças trazem a tona o cinema de aventuras juvenis que colocam seus jovens personagens em situações fantásticas e são focados em valores como amizade e coragem, como já visto em filmes como Goonies e Fica Comigo, além de fazer referência a E.T. na personagem Onze, uma garota misteriosa com poderes paranormais que é escondida por um dos garotos. As crianças estão sempre um passo a frente dos adultos, que aliás, sob  esse ponto de vista da narrativa, são praticamente apáticos, vide os pais de Mike, personagem principal, que só percebem as coisas que acontecem ao seu filho no ultimo episódio, sem mencionar Lukas e Dustin, cujos pais sequer aparecem na série. Esse núcleo também me trouxe muita referências a literatura de Stephen King, sempre focado nos personagens mais deslocados socialmente no colégio, mas que se mostram os mais preparados quando as "coisas estranhas" começam a acontecer.

O núcleo adolescente nos traz referências ao cinema terror de monstros (as tantas Horas do sei lá o que... dentre outros), logo, vemos o ambiente escolar, as festas regadas a bebida, o início da sexualidade, o desejo de rebeldia de vitrine, porém aqui, há uma humanização maior dos personagens, aqui a função dos adolescente não é apenas de servir de Buffet de monstro, eles têm importância, crescem e amadurecem em seus respectivos arcos da história. 

Nos adultos temos a inserção do elemento drama, através de Joyce (atuação brilhante de Winona Ryder), a mãe solteira que aos trancos e barrancos tem que sustentar seus filhos, por isso passando muito tempo afastada deles e de repente tem que lidar com o desespero e o sentimento de culpa pelo desaparecimento de seu filho mais novo, Hopper, cherife da cidade, cuja filha faleceu e acaba tomando a busca pela criança como uma busca pessoal, uma redenção.

Some a essas três linhas narrativas a já clássica teoria da conspiração governamental, tema recorrente em filmes americanos essa desconfiança da sociedade quanto as atitudes de seu governo (tema, aliás, muito explorado na clássica Arquivo X), atuações excelentes com destaque para o brilhantismo de Winona Ryder, que consegue passar o desespero misturada com culpa que a leva sua personagem a beira do colapso e Millie Brown, a Onze, melhor personagem da história, com poucas falas, mas muita expressividade a atriz consegue passar todo o complexo de emoções e reações da personagem e você têm a receita de uma série que com certeza será bem lembrada.

Cheguei a dizer, comentando a série com um amigo, que Stranger Things é o que Super 8 (filme de 2011) deveria ter sido, embora o filme tenha sido uma boa homenagem ao que foi produzido na década de 80, proposta que é também a dessa série, pecou por uma história apenas regular, um suspense que não deixa ninguém tenso em momento algum e uma conclusão talvez exagerada demais. 

Eleven (Onze) melhor personagem
Por óbvio que a série tem uma série de defeitos, principalmente no tocante a situações forçadas que não trazem veracidade a história, para sitar alguns, tecnologia aparentemente muito avançada pra década, personagens se colocando em perigo exagerado e desnecessário, um professor de ciências sabe tudo capaz de responder todas as perguntas que as crianças precisam (sério, o cara poderia ensinar a fazer um reator nuclear pelo telefone) enfim, olhando direitinho dá até pra achar mais coisas, quem sabe numa segunda assistida, porque para mim a primeiro experiencias com essa série foi imersão total naquele mundo e na proposta que ele traz para nós, são oito horas de história que poderiam passar como duas e você fica querendo mais.

Recomendado, assista!

domingo, 24 de abril de 2016

Desespero / Os Justiceiros


Em meados dos anos 90 Stephen King fez uma dobradinha literária com seu pseudônimo Richard Bachman, lançando meio que ao mesmo tempo os livros Desespero e Os Justiceiros, chamados livros gêmeos, pelo fato de contarem histórias diferentes, mas com os mesmos personagens e a mesma ideia de fundo, possessão humana por uma entidade chamada TAK.

Bem, obviamente nenhum dos dois livros virou lá um grande clássico na bibliografia do homem, que podem apostar já fez coisas bem mais interessantes na vida, por exemplo, no mesmo ano de lançamento de Desespero, 1996, ele lançou A Espera de Um Milagre, esse sim um clássico lindo e emocionante! Mas vá lá, ninguém é perfeito sempre, principalmente quando se escreve a ritmo industrial como King!

Não há ordem cronológica na leitura dos livros, mas na minha opinião desespero deve vir primeiro, isso porque é maior e mais completo e define o que seria a mitologia do vilão. A motivação inicial é ótima, um casal atravessa o deserto de carro pela rodovia mais solitária da América, quando se depara com um gato espetado numa placa de sinalização, não que isso tenha relevância pra história principal, é só um detalhe macabro. Logo eles conhecem Collie Entragian, um policial louco que os leva presos até a cidade chamada Desespero e descobrem que todos lá estão mortos exceto por um punhado de infelizes trancados na delegacia municipal e que serão os heróis da história. Não demora muito para eles perceberem que Entragian não é exatamente um ser humano, mas só uma carapaça que contendo um espírito ancestral chamado TAK, despertado das profundezas da terra enquanto a companhia de mineração local explorava uma velha mina abandonada.

Como disse um ótimo ponto de partida e a continuação também é bem legal, para enfrentar esse mal eles terão ajuda de um garoto milagreiro que tem contato direto com o próprio Deus! Se por um acaso vocês já leram A Dança da Morte já devem ter em mente mais ou menos como King trabalha essa questão, logo podem esperar uma dose maciça de religiosidade clichê no livro, a saber descrentes tendo suas convicções abaladas com milagres impossíveis, conversões, discursos de fé e coisas do gênero, se não lhe incomoda, siga adiante.

O livro é bastante extenso, há um preocupação não só em contar a história propriamente, mas em construir uma mitologia, tanto em relação a Deus quanto a Tak, ou seja, muitos flashbacks, interlúdios com histórias, sabem como é, todo mundo parado num lugar escondido e um dos personagens relatando "tudo o que sabe" e coisas do gênero. Nesse meio tempo a história vai se desenvolvendo até seu final com ares épicos e nobres sacrifícios aquela coisa toda. Clichê, clichê, clichê! 

Então chegamos aos Justiceiros, livro de Bachman, mais curto, aliás bem mais curto, temos os personagens com o mesmo nome, mas com personalidades diversas e em situações diferentes, o vilão continua sendo Tak, ele continua vindo das profundezas da terra em Desespera, mas dessa vez não mata todas sua cidade natal, mas possui um garoto autista com incríveis capacidades mentais e através dele consegue fugir de seu esconderijo no subsolo, diferente de Desespero não há uma preocupação em definir o que seja Tak, sua mitologia ou sua história, a preocupação é mais simples como detê-lo.

A história é a seguinte: numa tarde de verão na rua dos Alamos todos cuidam de suas vidas suburbanas quando um furgão vermelho vem descendo a rua, das janelas do furgão um cano de espingarda aparece e logo ele trará a morte para a pequena rua, seus moradores descobrirão que não estão mais vivendo no mundo que conheceram, mas entraram num pesadelo real ao qual terão que sobreviver.

Richard Bachman é o pseudônimo que King criou para contar suas histórias mais pessimistas, logo Os Justiceiros é uma versão mais sombria de Desespero, enquanto aquele foi feito para ser um épico de terror (pelo menos foi a intenção, creio) esse é um livro bem mais direto, sangrento, impactante e, por que não, cruel! A solução final não é nem épica, nem bonita, é anticlimática, sangrenta, suja, sem redenção para seus personagens, embora eu acho que no fim King tenha tido um pouco de piedade de Cammie Reed, você vai sacar quando ler.

Se são livros gêmeos Desespero é o irmão que a vai a igreja e Os Justiceiros o irmão que se embebeda em bares de quinta categoria. Devo confessar que gostei mais do estilo do segundo. 

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Iron Maiden - The Book of Souls


Tudo começa com uma introdução climática no sintetizador, quase espacial, lembra antigos filmes de ficção científica, a voz de Bruce Dickinson entra, empostada como quem canta de uma grande distância, frase por frase ele vai meio cantando meio recitando, a música é If Eternity Should Fail, uma das melhores canções de introdução dessa última encarnação Iron Maiden.

Estamos ouvindo The Book of Souls, 16º disco do Maiden, um disco superlativo, nem para o bem, nem para o mal, isso depende de como você encara a nova fase da banda. Mas pode enterrar suas esperanças de um retorno àquele Maiden dos anos 80 que nós conhecemos e aprendemos a amar. Isso é ruim? Novamente, depende do seu ponto de vista. Digo isso porque fica evidente nesse disco que o Maiden agora é uma banda de rock progressivo, mas com um pé na NWOBHM, o metal britânico clássico do qual a banda é um dos expoentes, mantém-se também as caracterísitcas clássicas da banda no que se refere a riff, solos, o baixo galopante de Steve Harris e o vocal forte de dramático de Bruce Dickinson.

O que foi agregado de novo ao Maiden foi a extensão e complexidade das canções, coisa que começou de fato no disco A Matter of Life and Death de 2006 com resultados bastante irregulares, cito, canções desnecessariamente longas, repetições de refrões ao ponto de você enjoar da música na primeira audição e composições fracas no que devia ser o carro chefe do disco, as músicas rápidas. Em 2010 veio The Final Frontier, um registro ainda mais longo que o anterior, praticamente todas as músicas eram grandes, os toques progressivos estavam mais evidentes, como exemplo a primeira música na verdade são duas unidas Sattelite 15/The Final Frontier e fica evidente a transição de uma para outra, a canção seguinte El Dorado vêm emendada com Final Frontier de forma que para ter a experiência completa você tem que ouvir as duas em sequência e por aí vai. Esse disco já foi bem melhor que o anterior, composições mais fortes e memoráveis.

Agora estamos em 2015, nesse meio tempo tivemos British Lion, projeto solo de Harris, Awoken Broken, projeto solo de Adrian Smith, tivemos o Iron revisitando o passado em turnês e recolhendo um ordenado da galera saudosa ao redor do mundo e por fim um disco de inéditas. As esperanças começaram a cair com o anúncio de um disco duplo, caíram ainda mais quando a duração das canções foi divulgada, PORRA, todas longas, até as curtas são longas ao seu modo, e que diabos é aquilo de 18 minutos, gente.. para! As perspectivas não eram boas.

Mas não é que o disco ficou bom! É enorme, o maior da carreira da banda, mas ouví-lo do início ao fim não cansa como ouvir um minuto de For The Great Good of God (música do Matter... caso você não saiba) e o motivo disso eu percebi logo na primeira audição. Primeiro, novos elementos nas canções, não é que o Iron tenha mudado radicalmente seu estilo, longe disso, você identifica a banda na primeira audição, ainda que não tivesse visto o disco. O que houve aqui foi uma agregação de novas idéias que, somadas ao estilo característico da banda, trouxeram um novo ar, uma variação maior de sonoridades para você ouvinte apreciar, o que também dá uma personalidade maior para cada canção, seja longa ou curta. Segundo, maior variedade nas composições, se nos discos anteriores Harris parecia fazer questão de assinar, nem que fosse parte, todas as composições, aqui as coisas ficaram mais abertas, com uma maior participação de Dickinson e Smith, dois caras que além de ótimos músicos são compositores criativos.

De Dickinson são minhas duas canções favoritas, a primeira If Eternity Should Fail, uma canção quer devia ter sido de um projeto solo, mas acabou no Iron, ainda bem, assim ela ganha toda a admiração que merece e a ultima, o épico Empire of The Clouds, ainda comentarei ela aqui.

Vamos ao disco em si, após uma excelente primeira impressão o disco segue com Speed of Light, conhecida já, terra firme do Iron Maiden, rápida, cheia de riffs e solos, refrão grudento, música pra tocar em rádios, até aqui já vimos o excelente trabalho de Smith/Dickinson no novo disco, mas o chefão chega na sequencia com The Great Unknown (Smith/Harris), boa música, bem típica dessa nova safra, ainda que não tenha maiores atrativos além de ser uma boa e sólida composição, mantém o pique do disco. Em The Red and The Black (Harris) o chefão mostra que também andou testando umas coisas novas por aí, essa é grande, mais de treze minutos, mas não cansa em momento nenhum, uma introdução acústica e flamenca começa a canção que segue em ritmo galopante, vocal compassado, riff marcante, muitos solos, ótimo refrão e o típico momento uÔOOooOOO feito sob medida pra galera no show! Uma composição clássica do Maiden. Para além do fato de que mantém o ritmo do disco,  não tenho maiores comentários sobre When the river runs deep. E aí chegamos a faixa título The Book of Souls (Harris/Gers), uma faixa bem dramática, mais uma música que mostra porque Janick Gers permaneceu na banda mesmo com a volta de Adrian Smith, com cara de encerramento de disco, não a toa foi geograficamente ordenada como encerramento do disco 1. Mas o Iron ainda tinha o que mostrar.

O disco 2 começa com a pesadíssima Death or Glory (Dickinson/Smith) os parça mandando bem novamente, música forte, carismática, presença certa nos shows, pelo menos eu espero. Uma releitura do riff de Wasted Years da início a boa Shadows of the Valey, mas sem maiores atrativos. Smith e Harris compõe juntos uma bela homenagem a Robin Williams em Tears of a Clown, é quase uma balada, mas com peso, baseada na dramaticidade do vocal de Dickinson e no seu refrão, lembra muito Coming Home do disco anterior, o que eu gostei bastante é que a música não é de forma alguma depressiva, mas também não é alegre e de forma alguma é piegas, enfim, uma linda homenagem. Man of Sorrows é boa, mas também não empolga muito, acho que vai acabar esquecida na discografia da banda.

O Império das Nuvens

Finalmente, Empire of the Clouds, que música, um verdadeiro épico, piano e guitarra fazem uma pequena introdução botando o ouvinte no clima, o piano então assume o protagonismo sob uma base orquestrada, sim, orquestra no Maiden, a canção segue como uma suite clássica até, de leve, ir introduzindo novamente a guitarra em sequência a bateria. Dickinson aparece com seu vocal típico cantor/narrador, um talento muito particular desse grande cantor. Pelos próximos minutos a música segue uma power balada narrando poeticamente a história trágica do grande dirigível britânico R10. Há variações rítmicas e interlúdios entre essas variações, uma coisa que me trouxe a lembrança as suítes do Yes, variações também entre beleza e peso, tudo isso servindo a narrativa, desde a beleza a grandiloquência do início representando o sonho britânico de ser também um império das núvens (repare que o Império sempre foi conhecido pela sua força naval) sobram referências a navios na música, inclusive ao Titanic, ainda que na canção a palavra esteja seja usada referente ao adjetivo titânico, mas não deixa de ser interessante. A música fica mais pesada nas partes referentes ao vôo evoluindo para uma dramaticidade caótica guiada por um piano frenético quando acontece a grande catástrofe. Então, como é comum em composições progressivas, a composição volta exatamente ao princípio, novamente guiada pelo piano e da mesma forma que começou a canção termina.

Depois de tudo, valeu a pena.

Uma das melhores composições de Dickinson, uma das melhores músicas do Iron Maiden, seja nessa era ou em qualquer outra! O disco chega ao fim e ao final, o que sobra é aquela sensação, de que valeu a pena. Um dos discos do ano sem dúvida!

Não sabemos se haverá outros álbuns, acredito que sim, os caras não estão tão velhos, e demonstraram com esse disco que de forma alguma estão acomodados, mostraram que podem fazer o que quiserem, usarem as influências que quiserem, não precisam ficar presos ao seu passado, o Iron Maiden, no final das contas, não é mais uma banda dos anos 80, é uma banda de hoje, que ainda olha para o futuro, que ainda tem vontade de criar! CARA!!! Que bacana constatar isso numa banda tão clássica, principalmente para pessoas que como eu, não viveram os anos 80, mas que apesar disso estão vendo o Maiden construindo sua história mais de quarenta anos depois de sua fundação!




sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Eden: It's an endless wolrd!


"... o papai sempre me aconselhava: Você será adulto quando conseguir ser infinitamente carinhoso com aqueles que lhe são caros, e infinitamente cruel com os outros"


Até o momento em minha vida apenas dois quadrinhos conseguiram captar profundamente minha atenção e paixão, estes foram Evangelion em primeiro lugar e Eden em segundo. Entre os dois há um tema em comum, a vida da humanidade num mundo pós apocalíptico, ambos focando no drama de jovens heróis tendo que dar seu jeito de viver a vida sobre os escombros do mundo. Já a diferença entre ambos está na abordagem, enquanto Evangelion é uma ópera trágica com robôs gigantes, visuais surreais e repleto de metáforas, Eden é uma ficção cyber punk, suja e cruel mostrando como a necessidade de sobrevivência do ser humano suplanta toda questão ética e moral.

Eden chegou ao Brasil graças a editora Panini, lá em 2003, era lançado em formato simples, fininho, com regularidade mensal, daí quando as edições nacionais alcançaram as japonesas a coisa degringolou um pouco, começaram a chegar cadas vez mais espaçadas e com o tempo pararam totalmente, até que por fim, chegou a triste notícia do cancelamento em definitivo. Junto com Evangelion, Shaman King, foram os quadrinhos que marcaram minha adolescência (incluiria Full Metal Alchemist, mas a verdade dos fatos é que só gosto do primeiro anime que difere bastante do mangá) e são o conjunto de histórias às quais sempre retorno e nunca canso de ler.

Daí dá pra imaginar qual não foi minha alegria quando me deparei com um volumão enorme de Eden, lá estava ele, lindíssimo, condensado de duas edições japonesas num volume de mais de 400 páginas com a belíssima e poética capa mostrando o Enoah Ballad e Hanna Mayall, os dois personagens que dão a tônica do início da série e pais do herói principal Elijah Ballad.

Mas chega em enrolação vamos a história. Em 2086 uma peste se espalhou pelo mundo, o vírus Closer que petrifica todos os órgãos e tecidos do corpo humano e lentamente causando sua morte, ninguém sabe da onde veio o vírus, não há cura ou vacinas, sequer sabe-se ao certo como é transmitido, assim conforme o caos e o medo se espalham pelo mundo e conflitos territoriais e raciais geram guerras o vírus mata indiscriminadamente. Um grupo de cientistas refugiadas num Éden, uma instalação artificial independente que produz o próprio oxigênio, alimento e energia, um grupo de cientistas tentam descobrir uma forma de salvar o mundo. Entretanto nem todos pensam que o mundo deva ser salvo, uma sabotagem avaria o sistema independente e deixa entrar a atmosfera contaminada do exterior, assim pouco a pouco os próprios cientistas acabam sucumbindo ao virus, curiosamente, somente duas crianças parecem ser imunes a doença Enoah e Hanna. Enquanto isso. no mundo exterior onde o caos se espalha uma instituição surge e com ela a esperança da reunificação de um mundo fragmentado a Federação Propater. E isso é apenas o primeiro capitulo da história.

A ação se desenrola mesmo 20 anos depois quando o vírus, ao que parece, está controlado, o mundo começa a se reerguer das cinzas sob a bandeira da Federação Propater que substituiu todas as instituições vigentes no mundo, incluindo aí as Nações Unidas e, como sempre acontece, tornou-se totalistarista centralizando poder de várias nações. Alguns territórios recusam-se a se unir a Propater o que causa inúmeros confrontos, dentres os rebeldes está a Nômade, grupo guerrilheiro multiétnico que trava uma sangrenta guerra contra o poder bélico gigantesco da Federação. Nesse contexto aparece Elijah, filho mais velho de Enoah, que agora é um homem, não um qualquer, mas o maior chefe do maior cartel de drogas do mundo, o da Colômbia, e principal alvo da Propater, por motivos ainda não bem explicitados, só que, ninguém consegue encontrá-lo, Elijah se juntoa a Nômade enquanto tenta fugir da Propater que sequestrou sua mãe Hanna e sua irmã mais nova e por pouco não o capturou também! Há dois grandes interesses da Propater, o vírus closer e os genes imunes dos Ballard, e tentar descobrir os motivos desses interesses é uma das tônicas da série. A outra tônica são as inúmeras histórias paralelas que se intercruzam, os personagens e suas tragédias, as casualidades de um mundo violento que transforma seres humanos inocentes ora em vítimas ora em assassinos. Um mundo cruel onde ninguém está a salvo, um mundo onde o imperativo é manter-se vivo não importa quantos devam perecer para isso, um monde onde parece aceitável dizimar uma aldeia pelo simples fato que ela está no caminho de um grupo de soldados que contém uma informação que de modo algum pode cair nas mãos do inimigo. Esse o mundo de Eden. 

Poderia escrever um texto com o dobro do tamanho sobre os personagens, mas a preguiça só me permite fazer algumas considerações sobre o principal Elijah, é o primogênito de Enoah e carrega nas costas a fama do pai, o maior chefe de trafico do mundo, um personagens que em muitos ângulos lembra Shinji de Evangelion, porém com todos os defeitos de personalidades corrigidos, o que não surpreende uma vez que o próprio autor disse que veio a vontade de escrever Eden após assistir ao anime de Eva, logo acho natural essa inspiração, Elijah é uma criança jovem, inocente, meio atrapalhado, mas, diferente do cúmulo da hesitação que era Shinji, ele não se furta a fazer o necessário. Daí que é interessante e trágico ver o amadurecimento do personagem que irá transformar ele de uma criança em um homem, frio e estrategista, como nunca cheguei ao fim do mangá, fica difícil dizer se ainda haverá algum resquício daquela inocência do inicio da história, será interessante descobrir.

Ainda outro ponto de interesse da série são os questionamentos filosóficos, morais e religiosos que permeiam a história. Eles surgem de forma natural e espontânea nos diálogos dos personagens, como, é possível acreditar em Deus num mundo onde tantos inocentes morrem? É possível acreditar nos humanos? É possível acreditar na paz? Olhando as notícias desse nosso mundo real, várias dessas questões não já passaram até mesmo pela nossa mente?

Enfim, Eden é um retrato de um futuro distópico onde a liberdade foi entregue ao um poder centralizador pelo medo de uma constante ameaça representada pelo vírus, onde alguns núcleos rebeldes tentam se impor sobre o poder bélico da Propater, nem sempre de maneira ética. Por fim, é a história de um mundo cruel contatada do ponto de vista daqueles que sobrevivem, não importando o que tenham de fazer para isso!

Tecnologia, violência, sexualidade, tramas paralelas que se cruzam e uma pitada de ficção científica surreal são a tônica dessa série mangá, que se você puder, eu recomendo que acompanhe! Eu certamente acompanharei, tudo de novo!

domingo, 19 de abril de 2015

Descordantes ao vivo no Teatrão

A noite de 18 de abril de 2015 marcou mais um show da turnê de divulgação do disco Espera a Chuva Passar da banda Os Descordantes, o show aconteceu no Teatro Plácido Castro, vulgo Teatrão. Os Descordantes são conhecidos na cena acreana, especialmente em Rio Branco, onde já fizeram shows em festivais, pubs, bares, DCE's, Saraus e até um marcante show no quintal da casa do vocalista. Com esforço, dedicação, suor e muito amor ao que fazem eles foram construindo seu nome para além das fronteiras acreanas participando de festivais em outros Estados e sendo (bem) reconhecidos pela cena nacional.

Esse ano foi uma coroação para todo os esforços da banda, com o lançamento oficial do disco, verdade que já tinham lançado "on line" ano passado, mas agora ele veio em formato físico, palpável e muito mais real, também para os ouvintes, mas principalmente para a própria banda. Gravaram no Estúdio Show Livre, onde vários artistas da cena independente já participaram e até mesmo alguns do "mainstream" como Sepultura por exemplo. Na sequência a banda saiu em turnê por vários Estados do Brasil com resultados que deixaram os membros da banda bastante satisfeitos.

Depois dessa volta pelo litoral brasileiros a banda volta pra casa, no meio na Amazônia e aqui faz o lançamento oficial do seu primeiro disco e de quebra faz a gravação de seu primeiro DVD, toca música nova e  presta homenagem à música acreana, particularmente a Tião Natureza e Jorge Cardoso. E claro, apresenta seu rock romântico, ora pop, ora brega, ora samba, a banda gosta de variar nos ritmos. Teve participações especiais Heriko Rocha, conhecido músico da cena local, Thiago Melo que inclusive toca com o vocalista Dito nos Velhos Cowboys, quem frequenta os pubs acreanos, já viu! E a banda Capuccino Jack que participou na homenagem a Tião Natureza. 

A formação estava azeitadíssima, com uma alteração, que foi a volta do tecladista/pianista e co-fundador da banda Sóstenes de Andrade. Diego Torres (ou Dito pra abreviar) o frontman, vocalista e guitarrista, Saulinho no baixo, mas também mandando bem na guitarra e George Naylor bastante energético na bateria.

Difícil escolher um destaque no show, a banda tem um repertório de alta qualidade, nenhuma música era fraca ou descartável, muitas delas já são clássicos como Hombridade ou o brega de barzinho de Sair Daqui (sinto um toque de Reginaldo Rossi nessa, sou só eu?) ou ainda a beleza triste de Hoje de Manhã com uma introdução bem psicodélica e, falando em tristeza, o que dizer de Amigo Amarelo, é um samba e até bem animadinho, mas a letra é de partir do coração! Mas confesso que minhas preferências estão nas mais pesadas e rockeiras Descrença e o Porto e o Rio! E, claro, teve Enquanto Puder, inegavelmente o maior hit da banda (já disse pro Dito que é a Confortably Numb dele) é sempre a mais esperada e claro que a banda segurou ela até o final, é difícil não se deixar levar, um piano belíssimo de acento pop conduz a canção, a letra é poética e romântica (e música romântica sempre foi a preferência nacional, pergunte ao Roberto Carlos) o rock chega lá pro final da música com uma base solida de baixo e bateria sustentando um inspirado solo de guitarra, enfim toda aquela receita pra uma música que a banda deverá tocar em seus shows pro resto da vida.

É legal, é bonito, dá esperança no amanhã para a música brasileira ver essas coisas. Show autoral, o publico curtindo como se estivesse vendo uma banda clássica, ver gente disposta a sair de casa pra ver uma banda acreana, tocar música acreana, é muito bacana! Isso é sucesso de verdade! Espero de coração que Os Descordantes façam vôos ainda mais altos (Lollapalooza talvez? Quem sabe...). Enfim, hora de encerrar o texto e o que ainda tenho pra dizer é... Vida longa aos Descordantes!!!