quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Crítica: A Forma da Água

Chega certa época na carreira de um diretor que parece que ele se sente na obrigação de fazer um filme fofo. Foi assim com Scorcese quando filmou A Invenção de Hugo Cabret, Spielberg sentiu esse necessidade logo cedo com seu ET, fico imaginando quando essa necessidade imperativa de ser fofo no cinema vai acometer Tarantino, tamos aí no aguardo. 

De qualquer forma, essa é a vez de Guilhermo Del Toro, excelente diretor que já nos presenteou com o sensacional Labirinto do Fauno, nos divertiu com um pastiche de anime chamado Pacific Rim e vá lá, nos entendiou um pouco com Colina Escarlate. Agora ele chegou para encantar com um conto de fadas de época sobre a luta por um amor impossível. Todos os elementos estão lá, desde a ambientação de época, os anos 60 no caso, a trilha sonora, as referências a filmes clássicos, musicais antigos, de preferência, além dos personagens, todos essencialmente bons, mas vivendo a margem da sociedade que basicamente, os despreza.

Mas Del Toro é mais que isso e um filme seu não dificilmente se conteria apenas nesses elementos básicos. Elementos tais como a sexualidade. A nudez desponta em vários pontos da trama, assim como seus personagens não são apenas representações platônicas de sentimentos puros, mas são pessoas com seus desejos, não atoa sua personagem principal se masturba todo dia de manhã, seu melhor amigo, um artista gay chegando a terceira idade sente atração pelo vendedor de tortas. 

Outro elemento é a tensão crescente do filme, apesar de ser estruturado na forma de um conto de fadas o sentimento da ameaça é forte. A construção do vilão o Coronel Strickland, tem muito a ver com isso, pois o diretor se preocupa em apresentar as frustrações do personagem, por um lado humanizando-o, por outro tornando-o ainda mais ameaçador.

Somado a isso, ainda há alguns comentários a respeito de racismo, preconceito e claro a falta de empatia que nos faz ver o diferente sempre como algo monstruoso sem sequer tentarmos entendê-lo. Possivelmente essa é a grande metáfora do monstro, capturado na Amazônia onde era idolatrado pelos nativos é visto como um monstro pelo Coronel como uma aberração que deve ser eliminada o mais rápido possível. O filme claro vai demonstrar quem é o monstro real dessa história.

Guilhermo Del Toro fez um seus melhores filmes com esse A Forma da Água, um conto de fadas pra gente grande, um filme fofo, mas também com uma boa dose de violência gráfica, um filme sobre a força do amor, mas não dissociado de sensualidade. Se a Academia pretende premiar esse homem com um Oscar, com certeza chegou o momento. Tem minha torcida.
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