Pular para o conteúdo principal

Spartacus (1960)

De todos os filmes que já vi de Stanley Kubrick, Spartacus é o que menos parece um Kubrick. Primeiro porque, na verdade, era o filme de Kirk Douglas, ator principal e produtor executivo, segundo porque começou dirigido por Anthony Mann, com quem Douglas brigou por diferenças artísticas na concepção do filme e só então chamou um ainda jovem Stanley Kubrick para a direção, que aliás também teve discussões com Douglas quanto ao direcionamento do filme, mas acabou tendo que se submeter ao ator, depois disso Kubrick teria tomado a resolução de somente fazer filmes em que ele tivesse amplo controle criativo.

Isso não tira o mérito do filme de ser uma verdadeira obra de arte, nem de seu diretor pelo brilhante trabalho. Um épico histórico com mais de três horas de duração, produção impecável e efeitos especiais decentes, principalmente considerando que foi feito quando nem se cogitava computação gráficas nos filmes.

O filme conta a história de Spartacus, nascido escravo é vendido para ser treinado como gladiador, na sua primeira luta até a morte é polpado por seu oponente Draba que é morto por sua insubordinação, tal piedade inflama Spartacus que começa uma rebelião de escravos em busca de liberdade que irá abalar os alicerces de Roma. Para além desse conto épico, também é um filme político ao explorar o jogo de poder no Senado Romano, principalmente entre o Senador Gracco e o General Crasso, oponentes políticos, o primeiro interessado em manter a República a qualquer custo ainda que tenha que tomar atitudes questionáveis, o segundo sonha com uma Roma purificada com ordem, fé aos deuses e livres de corrupção, para isso sonha com o poder concentrado na mão de um líder forte (ele mesmo claro). 

Um jogo político que pode ter muito a dizer ao nosso país. Numa das falas mais poderosas do filme o Senador Gracco, busca alertar o senado das intenções tirânicas de seu rival Crasso, quando um dos senadores argumenta que Crasso foi um dos poucos que jamais cedeu a corrupção ele responde: "Prefiro um pouco de corrupção republicana com a liberdade republicana do que tirania de uma ditadura e liberdade nenhuma". Ao fim, Crasso usará a rebelião dos escravos para incitar o terror em Roma e dessa forma se apresentar como o salvador ao concentrar sobre si todos os poderes dando o primeiro passo do viria a se tornar o império dos Césares. Caio Julio César que viria a se tornar o primeiro dessa linhagem aparece no filme como coadjuvante. 

Obviamente que Roma era um república só para os seus patrícios, para todos os demais era mera tirania, principalmente para os escravos. O filme busca mostrar como eles eram tratados como meros objetos de exploração cujas vidas estavam a disposição dos patrícios até mesmo para entretê-los onde entra as batalhas dos gladiadores. Após a rebelião os escravos são humanizados, passam a ter sonhos, aspirações por liberdade, a irmandade que estabelecem entre si é quase idílica, sem atritos, brigas ou traições. A essa sociedade comunitária é aposto os jogos de interesse político de Roma. 

Spartacus ganhou os Oscars por Direção de Arte, Fotografia e Figurino, merecidíssmos, fora a caracterização belíssimas dos personagens o filme nos brinda a todo momento com cenas de grande beleza, algumas verdadeiros quadros renascentistas em movimento. As cenas de batalhas são em escala épica, impressionantes mesmo hoje em dia.


E para quem é fã de Kubrick vai impressionar também o caráter emocional do filme. Para um diretor tão cerebral e pouco afeito a trabalhar as emoções humanas, pelo menos, as boas emoções humanas como amor, a fraternidade e o altruísmo, Spartacus é um oportunidade única para vermos um Kubrick mais emotivo. Provavelmente, muito disso teve a mão de Kirk Douglas interferindo na visão do diretor. Mas mesmo assim, são momentos belíssimos e comoventes, como a cena final (ALERTA SPOILER) quando vemos um Spartacus crucificado olhando pela primeira vez o rosto de seu filho.

Um grande filme (em todos os sentidos) que vale a pena ver. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

News of the World. (ou Era uma vez em um lugar qualquer)

Ditadura de 70 anos chega ao fim em Lugar Qualquer Cicrano de Souza – Enviado especial à Lugar Qualquer. O clima continua tenso em Lugar Qualquer, o ditador Mão de Ferro teve de fugir na calada da noite junto com sua família para fugir à fúria dos manifestantes. As ruas estão tomadas de populares, os conflitos com o exército são freqüentes, as lojas estão fechadas, os turistas se escondem apavorados nos hotéis ou tentam fugir em massa através dos aeroportos congestionados. Os saques a lojas e bancos ainda continua e não há dia em que não possa ser visto carros incendiado nas ruas e estradas da grande capital de Lugar Qualquer, Cidade Grande. Os manifestantes exigem a prisão do ex-ditador Mão de Ferro, porém até o momento não se sabe onde ele e sua família podem estar escondidos. Todas as residências oficiais já foram tomadas, e as propriedades particulares do ditador foram incendiadas. Há suspeitas de que eles podem estar escondidos nas regiões m...

Enquanto isso numa realidade não tão distante... (uma crônica)

O ano é 20xx, depois de uma série de revoluções pacíficas, algumas armadas, greves sindicais, passeatas nas ruas e uma série de épicos twittaços, foi a aprovada a lei a PLC n° 24.567 que proibiu terminantemente os abusos de chefes para com seus funcionários. As penas iam de pagamento de multa em caso de alteração no tom de voz até cinco anos de prisão no caso de café jogado na camisa. Foi uma festa para os trabalhadores, por muito tempo, isso foi bom. Porém o excesso de stress que a vida moderna causa àqueles de alto cargo somado a falta de um bucha em quem descontar as frustrações cotidianas acabou causando um série de suicídios em massa como nunca se viu na história desse país. Os nervos estavam a flor da pele, os altos executivos, secretários e até mesmo político não sabiam mais o que fazer, em quem descontar, nos filhos não podiam, a lei deles já fora aprovada muito tempo antes. A situação era grave, urgia uma medida. Foi quando surgiu a grande idéia, crie-se um cargo para isso: A...

A Balada de Chico Moreno e Bicho Feio. Canto quinto - parte 2

“Ô velho do capeta Tu ta fazendo a gente de besta?” Bradou Bento enraivecido Chico acalmou o amigo “Te acalma bento Esse velho de trapaceiro tem talento Mas não posso esquecer a missão Mandar o Bicho Feio pro cão Anda sua desgraça Pede logo tua cachaça” Retardando ainda mais o conto O velho tomou gole mais longo Não se fazia de rogado Esvaziava a garrafa num só trago “Então meu generoso senhor Agora lhe conto ainda com pavor Do que fez o cabra afoito Agiu que nem um doido Frustrada a sua vingança Se voltou contra a criança A filha mais jovem chamada Esperança. Bebe ainda novo Tomou-a nos braços a atirou no fogo! Que tamanha tragédia! A mãe ficou histérica Pulou em cima de Camargo com um grito E na testa levou um tiro O filho mais velho pra mata tentou escapar No intuito de seu pai avisar Mas para não deixar testemunho ocular Camargo correu atrás para o capturar Rápido correu o fugitivo Mas Camargo foi expedito P...