Pular para o conteúdo principal

Os Fiados de Seu Francisco. Parte 1 - O Lugar.

Havia uma cidade, na verdade um vilarejo, na verdade um conjunto de cinco ruas interligadas por pequenas e não pavimentadas travessas, aliás, pavimentada mesmo só a principal, a que cortava a cidade no meio, que era a Br, o resto no máximo, tinha um pouco de piçarra. A cidade era pequena, parada e pobre. Toda a vida da cidade se concentrava na Br é claro, por onde passavam carros, caminhões e ônibus. Paravam, lanchavam, iam no banheiro, iam embora. Era sempre a mesma rotina. Era uma vila de certa forma bem esquecida pelos governos locais. Bem, na verdade, isso é uma injustiça, afinal, a BR foi pavimentada e suas margens calçadas, luminárias em formatos europeus agora iluminavam a noite, baquinhos de madeira para a população espairecer com um belo por do sol a tarde, foram fixados e uma pracinha central foi construida, mantendo sem ao menos derrubar uma árvore das que já existiam, a noite não havia coisa mais bonita no pequeno vilarejo do que a pracinha iluminada por luzes alaranjadas, a menina dos olhos da população. Nunca tanta coisa havia sido feita pela bela cidadezinha.

Havia um posto de saúde, só não havia remédios, o médico aparecia lá de vez em quando, mas nas campanhas de vacinação, era sagrado as vacinas estarem lá, essa época não fazia muito sucesso entre as crianças. Havia também uma escola, que havia recentemente sofrido uma bela reforma, tudo ficou arrumado e bem feito, só faltavam os professores. Mas isso nem era lá um problema muito grave. Não havia também muitas crianças.

Essa era um pequeno incoveniente na cidade, ela estava envelhecendo, cerca de 80% de sua população passava dos cinquenta anos, entre os homens e dos quarenta entre as mulheres, os jovens a maioria morava com parentes na capital. Era uma cidade bem parada, sem o que fazer, os velhos na maior parte das vezes passavam o dia sentados nos bancos olhando para o nada e repassando entre si as últimas notícias, os óbitos eram bem frequentes nessas conversas, na verdade, um assunto até certo ponto bem popular. Então o que dizer, a pobre cidade estava morrendo.

Até os velhos já estavam reclamando que não havia nada de diferente pra se fazer na cidade, já haviam cansado do velho Bar do Ruivo, até mesmo cerveja, petisco e futebol nos domingos cansa nessa cidade. Os viajantes vinham, comiam, bebiam, cagavam e iam embora pensando: "nossa que lugar parado", até mesmo o velho (m)hotel do Azevedo fechara. Tudo faltava na cidade, e ela definhava pouco a pouco, com sua população envelhecida e cansada, da rotina, do marasmo, da paz reinante. Nem mesmo lembravam mais a ultima pessoa esfaqueada alí.

Foi nesse clima de tédio desesperador que surgiu Seu Francisco, veterano da cidade, com espiríto empreendedor adquirido em muitas viajens pelo mundo afora. Surge ele com uma idéia que poderia revolucionar o espiríto moribundo da cidade.

Para ressucitar a boa e velha cidade de PARADO.

continua na parte dois "O Empreendimento"

Gildson Góes.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Um país que cresce pouco e paga caro: o retrato econômico de 2025 na análise do PCB

  Em um momento em que o debate econômico volta ao centro da vida nacional, o economista Edmilson Costa apresenta no site do Partido Comunista Brasileiro (PCB) o artigo “Um balanço da economia brasileira em 2025” , trazendo uma análise crítica sobre os rumos do país. O texto questiona a qualidade do crescimento registrado no último ano, sustentado sobretudo pela exportação de commodities e por setores de menor valor agregado. Costa também chama atenção para o baixo nível de investimentos e para a desaceleração econômica observada ao longo de 2025. Um dos eixos centrais do artigo é a crítica à política de juros elevados conduzida pelo Banco Central, apontada como um dos fatores que restringem o consumo, o crédito e a expansão produtiva. O autor também aborda os impactos sociais desse modelo, como a manutenção de salários baixos, além de comentar medidas recentes que buscam aliviar a carga tributária sobre trabalhadores. Vale a leitura para quem quer entender — e questionar — os...

Os Descordantes: duas músicas

Um nome interessante na cena musical acreana é a banda Os Descordantes, nome referente ao termo descordo, que era o nome dado ao um específico tipo de trova que discorria sobre paixões não correspondidas, daí você já pode adivinhar o tema principal das canções desse grupo, paixões seguidas de pés na bunda e muita, mas muita dor de cotovelo e tudo isso embalado não em alguma espécie de rock erudito medieval, mas na mais tradicional forma de descordo brasileiro a música brega, o samba e um pop rock melodioso e choroso. Mistura que vem funcionando muito bem ao vivo nas casas noturnas e festivais de Rio Branco e outros estados do Brasil. De fato, a banda inclusive já tem um bom conjunto de fãs, tanto é que organizou um show de lançamento numa das casas mais tradicionais de dança e música brega da capital a Saudosa Maloca lotando lugar. A grande expectativa do ano é o lançamento do primeiro disco da banda Espera a Chuva Passar, que reunirá muitas das canções pop/brega já conhecidas do p...

Uma Fábula!

Havia certa vez, em uma terra cujo nome não quero me lembrar, três porquinhos, três irmãos porquinhos mais especificamente, vinham descendo uma estrada de terra, carregavam suas trouxas em suas costas e procuravam um lugar para morar. Até que acharam, um terreno, vasto, amplo e verde onde a terra era fértil e, principalmente, corria a rede de saneamento e eletricidade. Com tão boas condições de moradia os porquinhos resolveram ali habitar e ocuparam o terreno. O porquinho mais velho, achou melhor fazer tudo dentro dos padrões da legalidade e antes mesmo de começar a construir sua casa, foi atrás de regularizar a documentação do terreno junto a prefeitura. Seus irmãos, mais preguiçosos riram e começaram a construir logo suas casas, que esses papos de regularização a gente resolve depois. As casas dos irmãos mais novos estava quase pronta e o irmão mais velho ainda estava na Prefeitura tentando arrumar a documentação necessária, depois d...