Pular para o conteúdo principal

Os Fiados de Seu Francisco. Parte 5 - Em que nossos personagens encontram seu fim.

E para fechar o mês......


Ainda lembrava seu Francisco, das gloriosas noites de choperia, dos porres homéricos, das conversas altamente intelectuais, dos risos, das alegrias, da movimentação que havia naquela cidade desde a fundação do empreendimento. Dos domingos de futebol, da sexta de música ao vivo, tudo era agora apenas um lembrança de Seu Francisco. Passou o resto de seu dias a beber e relembrar do mais precioso momento de sua vida.
_ Jamais uma cerveja será tão boa quanto a da minha choperia. - falava seu Francisco.
Ele cansou da cidade e de seus reclamantes cidadãos, foi-se embora para a cidade grande. Lá virou um velho bêbado e amargurado que caminhava pelas ruas, com uma buchudinha na mão, pedindo esmolas e pratos de comida e falando da lenda que ele era.
_ Nunca, nunca aquela cidade ingrata viu uma Choperia como a minha. Eu me tornei uma lenda entre os botequeiros, eu ousei fazer o melhor ponto de bebida daquele interior e fui traiçoeiramente enganado. Ingratos, velhacos. Que bebam em seus botecos fedidos eu num to mais nem aí. Mas eu era uma lenda. - falou ele para um jovem que estava sentado ao seu lado em um banco. E para esse jovem ele contou toda a sua história, o jovem ouviu e não a esqueceu.

Alguns anos depois, aquele jovem desceu de um ônibus em uma pequena cidadezinha do interior e procurou um local onde comprasse algo gelado para beber, lá encontrou um boteco onde dois velho bebiam. Pediu um refrigerante e ouviu a conversa dos bêbados.
_ Nunca tem nada para se fazer nessa cidade, sem alguém ao menos fosse homem para fazer um empreendimento de verdade, aposto que teria sucesso, mas que a porqueira desse boteco.
_ E ninguém nunca tentou nada? - perguntou o jovem.
_ Até tentou meu filho, o Seu Francisco, e a Choperia o Ciclista Bêbado, mas num foi pra frente não e ficamos aqui, com o boteco do Ruivo. Mas aquela choperia é uma lenda até hoje ainda a gente fala, essa cerveja não é tão boa quanto a da Choperia do Francisco.
O jovem não pode conter a surpresa ao saber da realidade da história do velho mendigo das ruas.
_ E o Seu Ruivo, o que houve com ele?
_ Então, depois que seu Francisco se mandou daqui, o Ruivo tomou o porre mais lendário dessa cidade, esgotou o bar dele, deu cerveja de graça para a cidade todinha. Ai depois do Dia do Porre, encontramos seu Ruivo afogado no posso. Morreu todo sorridente o traíra, esse negócio de botequeiro deixa as pessoas birutas. Hehehehehehehehehe, num é nãoTião?
_ É mermo. - falou Tião. - Acho que o Seu Francisco é que foi esperto, deve ta fazendo sucesso lá pela cidade grande, embebedando até o prefeito. Do jeito que era o velho. hehehehe. Num é não Raimundo.
_ Pois é?
_ E onde ficava a choperia? - perguntou o jovem.
_ Fica uns quinze minutos mais pra lá, tu pode ir andando se quiser, inda da tempo de pegar o ônibus.
E lá foi o jovem, não demorou encontrou o espaço em ruinas. Não havia mais nada, só o espaço, as cadeiras, a máquina de chopp, as geladeira da cerveja, a televisão, o som, as mesas e cadeira tudo havia ido embora. O jovem se encostou na varanda e viu o enorme vale preenchido de bois e pasto, ao longe, a sombra longíqua de uma área ainda florestada.
Seu Francisco não teve sucesso na cidade grande, isso era coisa demasiada difícil, ele apenas se tornara um mendigo, e uma bela manhã o jovem estava passando pela praça e viu seu corpo ser posto dentro de um saco preto e ser levado para o IML, morreu como indigente sem nome e sem família.

Quando foi embora, os dois velhos ainda bebiam no velho bar do ruivo. Estavam pedindo mais uma quando o jovem embarcou no ônibus.
Cervejaria e cervejeiro passam, mas a cerveja continua - pensou o jovem.
O ônibus zarpou, a única coisa em movimento na cidade de Parado.

FIM!!!!!!!!

Gildson Góes.

Comentários

Bryce disse…
Tanto trabalho pra nada. Ô Ruivo, nem pra ser filho-da-puta prestou nessa vida. Morreu sorrindo, mas morreu. Num é não Tião?

Muito boa a estória Gildson. Tiro o chapéu pra vc!
Elynalia disse…
é maldição dos teus chicos é?
todos tem que morrer no final?
kkkkkkkkkkk

Postagens mais visitadas deste blog

Resenha - O Rei de Amarelo de Robert W. Chambers

  Publicada em 1895, pelo autor americano Robert W. Chambers, O Rei de Amarelo é uma coletânea de nove contos sendo os quatro primeiros de horror sobrenatural centrados numa peça fictícia, que leva o mesmo título da coletânea, e supostamente causa loucura em quem a lê. Os demais textos alteram-se entre temáticas fantásticas diversas, e contos mais realistas centrados ou no drama ou no romance. Mas é claro que o crème de la crème do livro são os contos de horror do Rei Amarelo. Esses contos influênciaram vários autores como H.P. Lovrecraft que inclusive incluiu elementos do Rei de Amarelo em sua mitologia de horror cósmico envolvendo a entidade Cthulhu tais como Hastur, Carcosa e o emblema amarelo (falaremos deles mais adiante). Elementos estes que também aparecem na primeira temporada da série True Detective, o que evidencia como a influência da literatura de Chambers tem sido duradoura, afinal é um livro de mais de cem anos de idade. Quantos aos contos segue um breve sinopse de ca...

News of the World. (ou Era uma vez em um lugar qualquer)

Ditadura de 70 anos chega ao fim em Lugar Qualquer Cicrano de Souza – Enviado especial à Lugar Qualquer. O clima continua tenso em Lugar Qualquer, o ditador Mão de Ferro teve de fugir na calada da noite junto com sua família para fugir à fúria dos manifestantes. As ruas estão tomadas de populares, os conflitos com o exército são freqüentes, as lojas estão fechadas, os turistas se escondem apavorados nos hotéis ou tentam fugir em massa através dos aeroportos congestionados. Os saques a lojas e bancos ainda continua e não há dia em que não possa ser visto carros incendiado nas ruas e estradas da grande capital de Lugar Qualquer, Cidade Grande. Os manifestantes exigem a prisão do ex-ditador Mão de Ferro, porém até o momento não se sabe onde ele e sua família podem estar escondidos. Todas as residências oficiais já foram tomadas, e as propriedades particulares do ditador foram incendiadas. Há suspeitas de que eles podem estar escondidos nas regiões m...

A Balada da Meia Noite.

O jovem senhor andava pelas ruas, as estrelas no céu, a lua cheia pairava num devaneio ilusório, cinco minutos faltavam para a meia noite. A rua esguia, calçada em tijolos, onde almas repousavam naquela noite, menos a do andarilho. A sombra do chapéu cobria seus olhos. Lá estava o velho casarão mal-assombrado, ele e seus fantasmas do passado, da janela uma sombra etérea aparecia, o fantasma da garotinha, ela lhe acenava, ele lhe retribuiu o aceno. E seguiu com a doce melodia do vento a lhe fazer companhia. O som das árvores e ar-condionados, seus passos seguiam o ritmo daquela noite profunda, a balada da meia-noite tocava, os fantasmas cantavam em um único som, suas almas se erguiam do solo, e mil coros de vozes defuntas entoavam aquela canção, era uma bela noite. O intrépido rapaz não se assutava, ele até gostava da companhia dos mortos, eles lhe aplaudiam. O jovem andarilho levava o buquê para sua amada. Lá estava a janela, ele entrou, depositou o buquê ao lado da jovem....