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Um Conto Civilizado (Parte sei lá qual)

Dez para meia noite, lá estava o cidadão comum. Sentado num banco de praça, tomava um refrigerante inocentemente, sem perceber a estranha, e um tanto assustadora, presença que se aproximava pelas suas costas. Não percebeu até que a mão da presença pousasse, de maneira ligeiramente pesada, e por isso mais ameaçadora, em seu ombro.

_ Ô tio, compra um chiclete aí. É dois real.

O cidadão comum sem querer demonstrar o susto que acabara de levar, se recompos. Respondou num tom meio inseguro, como que pra testar a reação do cidadão alí.

_ Não obrigado, não tenho dois reais.

_Tem sim tio, compra aí, é pra ajudar nas despesas lá de casa. - como todo bom vendedor ele era persistente, ou simplesmente chato.

_ Mas não tenho dois reais trocado?

_ Tem quanto aí tio, pra ver seu troco?

O cidadão comum se viu num impasse. Tinha na carteira quatro notas de cinquenta reais que imprudentemente deixara de trocar mais cedo e de forma mais imprudente ainda resolvera carregar para uma praça vazia às dez pra meia noite. Cogitou. Se era pra ser assaltado acabaria sendo de qualquer forma. Falou logo de uma vez.

_ Só tenha nota de cinquenta.

_ Tem grilo não eu troco.

_ Troca?

_ Troco mermo.

_ Então me dá um.

_ Ta aí.

O garoto pegou a nota de cinquenta reais, retirou da caixa onde carregava os chicletas um enorme, ernome mesmo, maço de notas pequenas. Contou tudo direitinho e devolveu o troco corretamente.

_ Brigadão Tio. Boa noite.

_ Hei espera aí menino! Você ganha tudo isso vendendo chicletes.

_ Também, mas só faço isso nas segundas, quartas e sextas. Fim de semana eu lavo carro.

_ E nas terças e quintas.

_ Ah aí eu assalto trouxas mermo.

_Ahn. Então tá.

_ Falou Tio, falando nisso. - puxou um relógio de dentro da caixa. - Olha só, meia noite e cinco.

Da mesma caixa o jovem e honesto vendedor e chiclete puxou uma calibre 38.

_ Vou madrugar no serviço hoje. PASSA A GRANA AÍ FILHO DA PUTA!!!!!

E assim o cidadã comum chegou em casa, sem dinheiro, sem documentos, sem celular, sem sapatos, mas pelo menos tinha um consolo de estar mastigando um delicioso chiclete.

Gildson Góes.

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