Pular para o conteúdo principal

Equanto isso no cemitério...

O sol ia se pondo no horizonte a ultima família saía do cemitério publico local, o zelador já aguardava impaciente no portão, equanto a família se retirava, comentavam maravilhas sobre o falecido, grande homem, bom pai, homem admirável e etc. o zelador já ouvira aquelas coisas antes. Após os atrasados saírem ele fechou o portão, deu mais uma olhada nas tumbas que viravam apenas vultos no crepúsculo daquela tarde de finados. Sentiu um calafrio subir por sua espinha, trancou o portão e foi pra casa a fim de assistir a novela.

Lá, em meio a escuridão, um braço esqueletido coberto com carne apodrecida surgiu de debaixo a terra, logo outras pessoas foram aparecendo por detrás das tumbas, de dentro de gavetas, saindo de capelinhas. Zumbis, vangando pelo cemitério, cumprimentando-se uns aos outros, perguntando como ia a morte, vai bem obrigado, só esses vermes malditos, me causam coceira, nossa que arranjo lindo, ótimo gosto tem sua filha Marizette, hum até que enfim resolveram dar uma pintura nessa joça, veja que jardim lindo e etc. Logo todo tipo de comentário se ouvia, homens e mulheres, algumas crianças também e mulheres carregando natimortos. Alguns estavam bem vestidos, outros em farrapos e alguns até mesmo nus.

Mas só um parecia deprimido, Seu Francisco Falecido, estava sentado sobre sua cripta segurando moribundamente uma vela acessa. Lá veio Tonhão Bebum, morto de cirrose fazia três anos, era vizinho de Seu Francisco, vinha carregando uma garrafa de 51 nas mãos.

_ O vizinho, quer um gole? Meu filho me trouxe pro dia dos finados. Menino de ouro esse.

_ Pois é - Francisco tomou um gole e a bebida escorreu por um buraco na sua traqueia. - A gente cria esses meninos com tanto gosto, ensina respeito a eles e quando a gente morre, como é que eles agradecem, acendendo velas. VELAS!

_ Hum. O meu num acende vela não, só traz uma bebidinha, mas acho que ele pensa que quem toma é o zelador sabe.

_ Sei. Pô até o japonês recebe uma tigela de arroz.

_ É mermo neh, Oh Japa, traz o arroz aí que a gente divide a cachaça.

_ A valeu, já que não tem saquê né! - disse o japonês.

_ Vai ser a luz de velas então. - disse seu Chico Falecido colando a sua velinha no meio do trio.

_ Tu tem é sorte seu Chico. - era seu Raimundo Cabra Macho, morto numa briga de pexera envolvendo uma partida de dominós. - Eu que tiva só filha, o que elas trazem? FLORES. Flores rosas!!! Pô! Vão duvidar da minha masculinidade, o Tonhão lá da quadra 9 não para de jogar na minha cara isso, ah se me tivessem enterrado com a pexera, porra disse não sei quantas vezes, me enterrem com a porra da pexera.

_ É a morte Seu Raimundo, é a morte. - falou Seu Chico filosófico.

E assim correu a noite, quando o sol nasceu todos os arranjos de flores tavam fora do lugar, velas caidas pelo chão e pegadas em varios lugares. O zelador teve outro calafrio e começou a arrumar tudo.

Gildson Góes.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Lux Vivens: a música medieval de Hildegard von Bingen pelas mãos de Jocelyn Montgomery e David Lynch

Santa Hildegarda de Bingen, ou em alemão Hildegard von Bingen , foi uma mulher marcante: monja beneditina, mística, escritora, teóloga, dramaturga, poeta e, principalmente, compositora. Viveu entre 1098 e 1179, na terra que hoje é a Alemanha. Foi canonizada em 1584, embora a canonização formal só tenha sido reconhecida oficialmente em 2012, pelo então Papa Bento XVI. A obra musical milenar de Hildegard faz parte da música sacra medieval de seu tempo, ou seja, sua obra está completamente ligada a seu trabalho teológico, tem cunho moralizante e pedagógico de acordo com a doutrina cristã medieval que era pregada pela compositora. Não esquecer que estamos frente à obra musical de uma santa católica. Mas o que realmente é interessante na obra é que esta foi inspirada por visões da santa. Acredita-se que ela não tenha recebido uma educação formal nos moldes que hoje conhecemos e que sua inspiração para a escrita, para a música, para a medicina e para a teologia lhe viesse pela inspiração di...

News of the World. (ou Era uma vez em um lugar qualquer)

Ditadura de 70 anos chega ao fim em Lugar Qualquer Cicrano de Souza – Enviado especial à Lugar Qualquer. O clima continua tenso em Lugar Qualquer, o ditador Mão de Ferro teve de fugir na calada da noite junto com sua família para fugir à fúria dos manifestantes. As ruas estão tomadas de populares, os conflitos com o exército são freqüentes, as lojas estão fechadas, os turistas se escondem apavorados nos hotéis ou tentam fugir em massa através dos aeroportos congestionados. Os saques a lojas e bancos ainda continua e não há dia em que não possa ser visto carros incendiado nas ruas e estradas da grande capital de Lugar Qualquer, Cidade Grande. Os manifestantes exigem a prisão do ex-ditador Mão de Ferro, porém até o momento não se sabe onde ele e sua família podem estar escondidos. Todas as residências oficiais já foram tomadas, e as propriedades particulares do ditador foram incendiadas. Há suspeitas de que eles podem estar escondidos nas regiões m...

Os Fiados de Seu Francisco. Parte 5 - Em que nossos personagens encontram seu fim.

E para fechar o mês...... Ainda lembrava seu Francisco, das gloriosas noites de choperia, dos porres homéricos, das conversas altamente intelectuais, dos risos, das alegrias, da movimentação que havia naquela cidade desde a fundação do empreendimento. Dos domingos de futebol, da sexta de música ao vivo, tudo era agora apenas um lembrança de Seu Francisco. Passou o resto de seu dias a beber e relembrar do mais precioso momento de sua vida. _ Jamais uma cerveja será tão boa quanto a da minha choperia. - falava seu Francisco. Ele cansou da cidade e de seus reclamantes cidadãos, foi-se embora para a cidade grande. Lá virou um velho bêbado e amargurado que caminhava pelas ruas, com uma buchudinha na mão, pedindo esmolas e pratos de comida e falando da lenda que ele era. _ Nunca, nunca aquela cidade ingrata viu uma Choperia como a minha. Eu me tornei uma lenda entre os botequeiros, eu ousei fazer o melhor ponto de bebida daquele interior e fui traiçoeiramente enganado. Ingratos, velhacos. Qu...