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Mais um desses Contos de Natal

Diz-se que por aí numa dessas fazendas haviam dois amigos. Uma amizade estranha, pra alguns impossível, para outros fantásticas, para os maliciosos um tanto suspeita, mas que era amizade verdadeira isso era. Acontece que os amigos eram um porco e peru. Ambos gordos, bonitos e bem tratados, daqueles que dá orgulho de se ter no quintal, daqueles que o criador chama os amigos e diz, não acham vocês o meu peru bonito? Não acham charmoso o meu porco?
Enfim, eram os dois amigos, muito amigos, passavam o dia passeando pelo quintal, discutindo sobre o clima, filosofia, esportes, ração e quem tinha mais fêmeas para cruzar. É, os dois tinham uma vida boa, ninguém podia negar, isso até chegar o dia fatídico.
Acontece que era natal e na casa do dono da fazenda ia fazer uma ceia, que animais criados na própria fazenda, queria ele se exibir para os amigos, chamou até o prefeito da cidade, este por sua vez convidou o governador. Minha nossa! O fazendeiro ficou cheio de orgulho, duas personalidades  na sua casa, o jantar ia ter que ser arrumado, coisa de rei. A mulher tratou de ir à cidade comprar vestidos, frequentar salões de beleza e o homem tratou mandar pra lavanderia seu melhor terno, é que tinha de tirar a catinga da naftalina, depois é claro foi tratar do jantar.
Desceu o fazendeiro a seu quintal e mandou trazer o porco e o peru. Olhou para os dois e ficou na indecisão, mandava cortar o seu porco ou seu peru. O porco era mais farto de carnes, mas o comer o peru era mais tradicional. Então aconteceu uma dessas coisas que só acontecem nessas histórias mentirosas que se escrevem por aí. Tanto o peru quanto o porco começaram a parlamentar usando de razões que o ser humano entendia como se os bichos estivesses falando português claro e coerente.

_ Humano, disse o peru - se tens de sacrificar alguém, que seja a mim, não imagino um mundo onde não existe meu amigo o porco.
_ Discordo, sou mais velho, meu amigo o Peru não conhece tudo ainda, ele tem de viver mais, ofereço-me de bom grado ao jantar. - retrucou o porco.
_ Não meu amigo, eu sou o prato tradicional, é praticamente para isso que existo, eu devo ir não você, fique aqui e viva o resto dos seus anos por mim.
_ Serão anos tristes esses meu amigo se não tiver sua prazerosa companhia, humanos, tenha misericórdia, sacrifique a mim.

E assim continuaram, cada um expôs suas razões e declarações de amizade com tamanha emoção que tocaram o coração naturalmente frio, insensível e egocêntrico do humano.

_ Muito bem,  é Natal, não posso ser tão cruel a ponto de separar dois amigos tão verdadeiros como vocês, sou humano, mas eu também tenho um coração. Prometo-vos, que jamais separarei vocês dois.

Com isso alegraram e se abraçaram os dois amigos, muito contentes por o humanos os ter poupado.

Então no dia da Ceia do Natal...

_ Boa noite convidados, disse o fazendeiro aos que estavam à mesa. - é com muita alegria que os recebo nessa noite natalina na minha casa. E para honrar a visita de vocês ofereço os pratos da noite. Peru assado e pernil de porco, só peço por favor que comam os dois juntos no mesmo prato, eles não gostavam de se separar um do outro quando eram vivos.

Enquanto os pratos eram servidos a mulher sussurrou ao marido.

_ Você podia comprar o peru e o pernil no supermercado e deixar os coitados vivos neh amor?
_ Peru e pernil de supermercado, pro governador, tá louca mulher!

E a ceia seguiu feliz

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