segunda-feira, 21 de abril de 2008

Pera Aí.

Silencioso, a arma em suas mãos, ele caminhava pela mata. Era um seringueiro, na luta pela terra, orgulhoso membro da armada de Plácido de Castro, nada temia, era sujeito homem, daqueles de matar onça com a faca, porque a bala da espingarda tinha dono. O boliviano.
Pensou ter ouvido um passo, ser virou com ar arma apontada tremendo em suas mãos, era a ansiedade, pensou. Não via a hora de matar o boliviano desgraçado. Continuou caminhando atento a todos os sons, sobressaltando-se com seus próprios passos, parecia ver inimigos em todas as direções.
A tensão aumenta, a mata está silenciosa demais, ele soa frio, parece ver visagens entre as árvores, o coração acelera, as pernas bambeam. Um galho se quebra sob a força duma pisada.
_ AHHHHHHHHHHHHHHH! - grita ele, um tiro ressoa pela mata.
E nada, nada de boliviano. Devo dizer que ele sentiu algo quente e molhado em suas calças. Um tanto envergonhado ele continuou sua caminhada e...
É agarrado pela manga da camisa. Lá estava o boliviano.
Sem coragem para olhar o seringueiro se prosta ao chão clamando:
_ Por favor seu boliviano, num mi mata não, tenho mulher e filhos seu boliviano, nunca matei um boliviano na vida, por favor num mi mata, num mi mata seu boliviano eu juro que num luto mais por favor...
Então ele olha. Uma certa plantinha o havia agarrado pela manga da camisa com seus espinhos.
Pera aí.
Um pouco atonito com cara de bocó, olhos incredulos e boca meio aberta, ele ainda permanece uns minutos para se levantar e....
_ ORA QUE SE FOSSE O BOLIVIANO EU TINHA MATADO!!!!!!! Sorte deles, sorte deles. Ora.
E la se foi o orgulhoso soldado de Plácido de Castro em busca de suas aventuras.

Gildson Góes.

P.S. Esta história foi contada a este escritor por Marcos Vinicius das Neves, numa versão mais curta e menos literaria, talvez até mesmo mais engraçada, porém mais me divirto quanto mais escrevo.
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