Pular para o conteúdo principal

Resenha: Uma Confraria de Tolos de John Kennedy Toole



“Quando surge no mundo um verdadeiro gênio, pode-se identificá-lo por este sinal: contra ele juntam-se em aliança todos os tolos”
Jonathan Swift

Ignatius J. Reily, intelectual obeso, desagradável, preguiçoso e egocêntrico, passa os dias trancado em seu quarto de camisolão rabiscando em seus cadernos suas invectivas contra a idade moderna ao mesmo tempo em que sofre de seus intensos problemas de gases. Ignatius é uma mente medieval que foi lançada catastroficamente no século errado. Para ele, o iluminismo foi uma grande mentira, a cultura não passa de um amontoado de afrontas aos bons costumes e a decência. Toda sua visão do mundo é embasada nos pensadores medievais como Boécio e Tomás de Aquino, além dos quadrinhos do BATMAN. Este é o (anti) herói dessa obra única de J. K. Toole.

A história começa quando sua mãe o obriga a sair às ruas em busca de emprego, porém sua mera presença fora do lar atrai uma série de desventuras quixotescas que quase sempre acabam em confusão, hábil nas palavras, Ignatius mente frequentemente para escapar das ciladas que ele mesmo apronta, mas nunca tarda para entrar em outra. Em sua Cruzada solitária contra a falta de geometria e teologia do mundo, nosso herói cruza com os mais diversos personagens, os malandros, policiais, exploradores e explorados. Nunca deixando de chamar atenção, geralmente negativa, e jamais tendo medo de expressar sua “cosmovisão” do mundo a quem quer que seja. As aventuras de Reily por uma Nova Orleans setentista acaba influenciando e mudando a vida de diversas pessoas ao seu redor.

É difícil descrever Uma Confraria de Tolos, inicialmente é uma comédia, tal como Swift em as viagens de Gulliver ou Cervantes em Dom Quixote, Toole constrói um verdadeiro mosaico das tolices humanas em sua obra, além de tecer uma crítica ácida a sociedade. Os personagens são variados e todos muito bem construídos em sua proposta, ou seja, não quer dizer que você irá de gostar deles, para exemplificar citemos a Sra. Reily, mãe de Ignatius, uma medíocre que sai pra se divertir com seus amigos igualmente medíocres onde tecem uma série de diálogos igualmente medíocres, ou Lana Lee, dona de uma boate sórdida onde trata como uma tirana seus funcionários, engana clientes desavisados e ainda tira lucro de um comércio ilegal de distribuição de pornografia em escolas ou ainda a Sra. Levy, madame rica, altruísta de fachada, que se diverte em atormentar o marido. Mas há personagens interessantíssimos, como Jones, negro, pobre e sem instrução, que tem de enfrentar todos os problemas do racismo americano, inclusive uma semiescravidão moderna nas mãos da já citada Lana Lee.

Há também um pretenso par romântico para Reily, Mirna Minkoff, do Bronx, sua única interlocutora e também sua Nêmese, liberal radical e agressiva, Mirna é profundamente engajada no mundo real, acredita que o sexo é a salvação do mundo e está sempre engajada nas mais diversas manifestações e protestos. Embora contrários, ambos são incompreendidos e ao mesmo tempo são os únicos que se compreendem, disso nasce uma relação que embora íntima é também conflituosa, as violentas e injuriosas cartas que eles trocam entre si, são pra mim um dos melhores momentos do livro. De fato, todas as aventuras que ocorrem no livro não passam de tentativas de Ignatius de se sobrepor e vencer todos os ideais de sua rival/amiga. Já ela, critica a reclusão de Ignatius, considera suas aventuras como paranoias causadas pela falta de sexo e procura convencê-lo a se juntar a ela em Nova York.

O desenvolvimento da história e primoroso, todos os eventos são bem amarrados e significativos, cada cena, embora aleatória no início tem seu significado revelado, enfim é uma trama extremamente bem construída e só não chega a perfeição, por um certo Professor Talc, que aparentemente serve apenas para ilustrar alguns episódios do passado de Ignatius e Mirna, sua participação me soou desnecessária ou eu perdi algum fio da meada. 

Por fim, recomendo vivamente este livro, leia-o e não desanime com os primeiros capítulos (são muito fracos) você irá compreender o sentido da obra no final, preste atenção nas cartas entre Mirna e Ignatius e nos diários, onde este expõe suas invectivas contra o mundo, são as melhores e mais geniais partes do livro.

Comentários

fabio lima disse…
Gostei do enredo, tudo que diz respeito a críticar o conceito humano, ridículo, de "sociedade moderna" me interessa.

Postagens mais visitadas deste blog

Resenha - O Rei de Amarelo de Robert W. Chambers

  Publicada em 1895, pelo autor americano Robert W. Chambers, O Rei de Amarelo é uma coletânea de nove contos sendo os quatro primeiros de horror sobrenatural centrados numa peça fictícia, que leva o mesmo título da coletânea, e supostamente causa loucura em quem a lê. Os demais textos alteram-se entre temáticas fantásticas diversas, e contos mais realistas centrados ou no drama ou no romance. Mas é claro que o crème de la crème do livro são os contos de horror do Rei Amarelo. Esses contos influênciaram vários autores como H.P. Lovrecraft que inclusive incluiu elementos do Rei de Amarelo em sua mitologia de horror cósmico envolvendo a entidade Cthulhu tais como Hastur, Carcosa e o emblema amarelo (falaremos deles mais adiante). Elementos estes que também aparecem na primeira temporada da série True Detective, o que evidencia como a influência da literatura de Chambers tem sido duradoura, afinal é um livro de mais de cem anos de idade. Quantos aos contos segue um breve sinopse de ca...

Death Note (2017)

Light Turner é manezão A verdadeira musa sociopata do filme. Como você utilizaria um caderno que tem o poder de matar pessoas? Essa questão é crucial para compreender a diferença entre a produção norte-americana de Death Note da Netflix e o original japonês. Vamos lá: opção 1: você não mata ninguém conhecido, monta um esquema baseado em noticiários de televisão, monta um esquema inteligente para que ninguém descubra seu caderno ou Opção 2: você mata seu colega de escola, executa uma vingança pessoal com ele e o mostra pra aquela garota que você é afim, mas nunca falou com você. É nesse esquema que reside a maior fraqueza de Death Note, seu protagonista e também vilão, Light Turner é um jovem bastante mediano que recebe um grande poder e não sabe muito bem como lidar com ele, seu duplo animado japonês é um jovem gênio sociopata que decide criar um mundo novo executando bandidos da solidão de seu quarto e jamais duvida da justiça de seu comportamento e não tem um pingo de remorso ...

Spartacus (1960)

De todos os filmes que já vi de Stanley Kubrick, Spartacus é o que menos parece um Kubrick. Primeiro porque, na verdade, era o filme de Kirk Douglas, ator principal e produtor executivo, segundo porque começou dirigido por Anthony Mann, com quem Douglas brigou por diferenças artísticas na concepção do filme e só então chamou um ainda jovem Stanley Kubrick para a direção, que aliás também teve discussões com Douglas quanto ao direcionamento do filme, mas acabou tendo que se submeter ao ator, depois disso Kubrick teria tomado a resolução de somente fazer filmes em que ele tivesse amplo controle criativo. Isso não tira o mérito do filme de ser uma verdadeira obra de arte, nem de seu diretor pelo brilhante trabalho. Um épico histórico com mais de três horas de duração, produção impecável e efeitos especiais decentes, principalmente considerando que foi feito quando nem se cogitava computação gráficas nos filmes. O filme conta a história de Spartacus, nascido escravo é vendido pa...