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RESENHA: Anjo Gabriel - Lucifer Rising

Lucifer Rising é o segundo álbum da banda pernambucana Anjo Gabriel, trata-se de uma trilha sonora alternativa para um curta metragem dos anos 70 dirigido por Kenneth Anger. O curta, sem diálogos,  trata de "deuses Egípcios invocando o anjo Lúcifer a fim de inaugurar uma nova era do oculto" (que viagem!), palavras do próprio Anger que inclusive nega que o filme seja psicodélico e ainda por cima desaprova o uso de drogas "Eu acho que drogas são muletas, você não precisa delas para ser criativo". O filme é basicamente uma síntese da contracultura dos anos 70 que flertava com diversas vertentes místicas indo do satanismo à busca pela dita sabedoria oriental, tendo, por isso, cenas filmadas no Egito e nos nos Stonehenge da Inglaterra, além da farta utilização de elementos Egípcios como ideogramas e figuras piramidais, também constam referências à Thelema e a seu mentor Aleister Crowley, que Anger considera um gênio britânico.

Não é a toa que esse projeto chamou atenção de grandes figuras da música como Jimmy Page, que foi cotado para fazer a trilha sonora original do filme, porém desentendimentos com o diretor cancelaram a participação de Page que só lançaria sua versão da trilha sonora muitos anos depois, em 2012. O filme foi lançado com trilha sonora escrita por Bobby Beausoleil na prisão, onde está até hoje condenado por participação nos assassinatos de Tate-La Bianca, a mando de Charles Manson.

Essa é, basicamente, a história do filme, pulamos então para o 2010 quando houve a mostra Play The Movie, para a qual a banda Anjo Gabriel escreveu compôs sua versão para trilha sonora do filme. Três anos depois em 2013 a banda faz o registro permanente de seu disco lançando-o apenas em vinil (os caras são absolutamente old school) e só meses depois em CD (nada de downloads grátis na net crianças). Muito coerente para a banda, que em seu som, presta uma homenagem ao rock psicodélico, ao hard e ao progressivo dos anos 70 que teve no vinil sua maior mídia de divulgação.

O Anjo Gabriel já havia impressionado em seu primeiro disco O Culto Secreto do Anjo Gabriel, de 2011, onde mostrou um hard poderoso repleto de psicodelia e elementos progressivos. Agora em seu segundo disco, eles nos traz um formato típico do rock progressivo, a suíte, aqui uma de 30 minutos de duração, divida em duas partes, cada uma com uma divisão em movimentos.

A primeira começa com um clima extramente soturno, é Volcanos and Lizards, uma música ambiente sinistra e cheia de efeitos sonoros como batidas no coração, chiados estranhos e feitos de sintetizador criando um clima tenso até o estouro do primeiro riff de guitarra, compassado, lento como um sino anunciando uma chegada ou inicio dessa louca viagem sonora. O segundo movimento Nayasteps é guiada por um riff blues da guitarra sobre uma batida quase tribal da bateria, uma gaita ecoa trazendo um clima "suspense de faroeste", um das partes mais psicodélicas do disco, é um movimento extremamente climático e o que vem a seguir é ainda melhor.

Se transformar em Ar, terceiro movimento, lindíssimo, perfeito. Uma flauta, etérea, abre esse movimento, deixando a música e o espírito mais leve para o início de um incrível solo de guitarra (poderia ter sido escrito pelo próprio Gilmour) revezando com um solo de sintetizador, ambos maravilhosos construindo a música sobre uma base sólida de baixo e bateria, um rock setentista completamente progressivo.

Da até um pouco de pena quando esse movimento se encerra e começa o quarto A Ascensão dos Druidas, guiado principalmente pelo sintetizado e teclados é um movimento com bateria jazzística e toques psicodélicos com vozes ao fundo recitando palavras ininteligíveis, bem ao estilo rock oculto, há ainda um perceptível toque oriental na música e assim com o som de vento e de uma flecha atingindo o alvo, encerra-se a primeira parte.

Um estouro inicia a segunda parte e na sequência um poderoso hard rock invade nossos ouvidos com todas a boas qualidades que esse estilo possui, riff de guitarra grudento, você vai se pegar cantarolando-o, uma guitarra solo em franco duelo com o teclado numa música acelerada, vigorosa e criativa, nos anos 70, poderia ter sido uma composição do Deep Purple ou talvez do Sabbath. O que vem depois é uma espécie de free jazz experimental com bateria frenética e fora de ritmo, é um movimento curto que logo abre alas da pra volta do hard rock da banda, não tão pesado quanto o anterior, mas cheio de feeling.

Por fim, o encerramento, que é um verdadeiro clímax cinematográfico, volta um hard tão vigoroso e pesando quando aquele que iniciou o movimento, embora não seja o mesmo, aqui há efeitos sonoros dão um aura de Space rock para a música, um encerramento épico para essa grande canção.

Não é difícil considerar o Anjo Gabriel como uma das melhores banda em atividade no Brasil a força e a criatividade de suas composições os equiparam às melhores bandas internacionais do estilo. É quase um crime pensar que música de tal qualidade é feita no país e não é de conhecimento geral. Tivessem surgido nos anos 70, não tenho dúvidas que essa banda teria um status de mito atualmente, talvez a história lhes faça justiça para o futuro. Se você gosta de boa música, se você gosta de bom rock, ouça essa banda.

Fontes: 
The Guardian - Kenneth Anger: como eu fiz Lucifer Rising (em inglês)

Collector's Room - Anjo Gabriel: Critica de Lucifer Rising

Vídeo
Filme Lucifer Rising mesclado com trilha sonora do Anjo Gabriel

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