segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Iron Maiden - The Book of Souls


Tudo começa com uma introdução climática no sintetizador, quase espacial, lembra antigos filmes de ficção científica, a voz de Bruce Dickinson entra, empostada como quem canta de uma grande distância, frase por frase ele vai meio cantando meio recitando, a música é If Eternity Should Fail, uma das melhores canções de introdução dessa última encarnação Iron Maiden.

Estamos ouvindo The Book of Souls, 16º disco do Maiden, um disco superlativo, nem para o bem, nem para o mal, isso depende de como você encara a nova fase da banda. Mas pode enterrar suas esperanças de um retorno àquele Maiden dos anos 80 que nós conhecemos e aprendemos a amar. Isso é ruim? Novamente, depende do seu ponto de vista. Digo isso porque fica evidente nesse disco que o Maiden agora é uma banda de rock progressivo, mas com um pé na NWOBHM, o metal britânico clássico do qual a banda é um dos expoentes, mantém-se também as caracterísitcas clássicas da banda no que se refere a riff, solos, o baixo galopante de Steve Harris e o vocal forte de dramático de Bruce Dickinson.

O que foi agregado de novo ao Maiden foi a extensão e complexidade das canções, coisa que começou de fato no disco A Matter of Life and Death de 2006 com resultados bastante irregulares, cito, canções desnecessariamente longas, repetições de refrões ao ponto de você enjoar da música na primeira audição e composições fracas no que devia ser o carro chefe do disco, as músicas rápidas. Em 2010 veio The Final Frontier, um registro ainda mais longo que o anterior, praticamente todas as músicas eram grandes, os toques progressivos estavam mais evidentes, como exemplo a primeira música na verdade são duas unidas Sattelite 15/The Final Frontier e fica evidente a transição de uma para outra, a canção seguinte El Dorado vêm emendada com Final Frontier de forma que para ter a experiência completa você tem que ouvir as duas em sequência e por aí vai. Esse disco já foi bem melhor que o anterior, composições mais fortes e memoráveis.

Agora estamos em 2015, nesse meio tempo tivemos British Lion, projeto solo de Harris, Awoken Broken, projeto solo de Adrian Smith, tivemos o Iron revisitando o passado em turnês e recolhendo um ordenado da galera saudosa ao redor do mundo e por fim um disco de inéditas. As esperanças começaram a cair com o anúncio de um disco duplo, caíram ainda mais quando a duração das canções foi divulgada, PORRA, todas longas, até as curtas são longas ao seu modo, e que diabos é aquilo de 18 minutos, gente.. para! As perspectivas não eram boas.

Mas não é que o disco ficou bom! É enorme, o maior da carreira da banda, mas ouví-lo do início ao fim não cansa como ouvir um minuto de For The Great Good of God (música do Matter... caso você não saiba) e o motivo disso eu percebi logo na primeira audição. Primeiro, novos elementos nas canções, não é que o Iron tenha mudado radicalmente seu estilo, longe disso, você identifica a banda na primeira audição, ainda que não tivesse visto o disco. O que houve aqui foi uma agregação de novas idéias que, somadas ao estilo característico da banda, trouxeram um novo ar, uma variação maior de sonoridades para você ouvinte apreciar, o que também dá uma personalidade maior para cada canção, seja longa ou curta. Segundo, maior variedade nas composições, se nos discos anteriores Harris parecia fazer questão de assinar, nem que fosse parte, todas as composições, aqui as coisas ficaram mais abertas, com uma maior participação de Dickinson e Smith, dois caras que além de ótimos músicos são compositores criativos.

De Dickinson são minhas duas canções favoritas, a primeira If Eternity Should Fail, uma canção quer devia ter sido de um projeto solo, mas acabou no Iron, ainda bem, assim ela ganha toda a admiração que merece e a ultima, o épico Empire of The Clouds, ainda comentarei ela aqui.

Vamos ao disco em si, após uma excelente primeira impressão o disco segue com Speed of Light, conhecida já, terra firme do Iron Maiden, rápida, cheia de riffs e solos, refrão grudento, música pra tocar em rádios, até aqui já vimos o excelente trabalho de Smith/Dickinson no novo disco, mas o chefão chega na sequencia com The Great Unknown (Smith/Harris), boa música, bem típica dessa nova safra, ainda que não tenha maiores atrativos além de ser uma boa e sólida composição, mantém o pique do disco. Em The Red and The Black (Harris) o chefão mostra que também andou testando umas coisas novas por aí, essa é grande, mais de treze minutos, mas não cansa em momento nenhum, uma introdução acústica e flamenca começa a canção que segue em ritmo galopante, vocal compassado, riff marcante, muitos solos, ótimo refrão e o típico momento uÔOOooOOO feito sob medida pra galera no show! Uma composição clássica do Maiden. Para além do fato de que mantém o ritmo do disco,  não tenho maiores comentários sobre When the river runs deep. E aí chegamos a faixa título The Book of Souls (Harris/Gers), uma faixa bem dramática, mais uma música que mostra porque Janick Gers permaneceu na banda mesmo com a volta de Adrian Smith, com cara de encerramento de disco, não a toa foi geograficamente ordenada como encerramento do disco 1. Mas o Iron ainda tinha o que mostrar.

O disco 2 começa com a pesadíssima Death or Glory (Dickinson/Smith) os parça mandando bem novamente, música forte, carismática, presença certa nos shows, pelo menos eu espero. Uma releitura do riff de Wasted Years da início a boa Shadows of the Valey, mas sem maiores atrativos. Smith e Harris compõe juntos uma bela homenagem a Robin Williams em Tears of a Clown, é quase uma balada, mas com peso, baseada na dramaticidade do vocal de Dickinson e no seu refrão, lembra muito Coming Home do disco anterior, o que eu gostei bastante é que a música não é de forma alguma depressiva, mas também não é alegre e de forma alguma é piegas, enfim, uma linda homenagem. Man of Sorrows é boa, mas também não empolga muito, acho que vai acabar esquecida na discografia da banda.

O Império das Nuvens

Finalmente, Empire of the Clouds, que música, um verdadeiro épico, piano e guitarra fazem uma pequena introdução botando o ouvinte no clima, o piano então assume o protagonismo sob uma base orquestrada, sim, orquestra no Maiden, a canção segue como uma suite clássica até, de leve, ir introduzindo novamente a guitarra em sequência a bateria. Dickinson aparece com seu vocal típico cantor/narrador, um talento muito particular desse grande cantor. Pelos próximos minutos a música segue uma power balada narrando poeticamente a história trágica do grande dirigível britânico R10. Há variações rítmicas e interlúdios entre essas variações, uma coisa que me trouxe a lembrança as suítes do Yes, variações também entre beleza e peso, tudo isso servindo a narrativa, desde a beleza a grandiloquência do início representando o sonho britânico de ser também um império das núvens (repare que o Império sempre foi conhecido pela sua força naval) sobram referências a navios na música, inclusive ao Titanic, ainda que na canção a palavra esteja seja usada referente ao adjetivo titânico, mas não deixa de ser interessante. A música fica mais pesada nas partes referentes ao vôo evoluindo para uma dramaticidade caótica guiada por um piano frenético quando acontece a grande catástrofe. Então, como é comum em composições progressivas, a composição volta exatamente ao princípio, novamente guiada pelo piano e da mesma forma que começou a canção termina.

Depois de tudo, valeu a pena.

Uma das melhores composições de Dickinson, uma das melhores músicas do Iron Maiden, seja nessa era ou em qualquer outra! O disco chega ao fim e ao final, o que sobra é aquela sensação, de que valeu a pena. Um dos discos do ano sem dúvida!

Não sabemos se haverá outros álbuns, acredito que sim, os caras não estão tão velhos, e demonstraram com esse disco que de forma alguma estão acomodados, mostraram que podem fazer o que quiserem, usarem as influências que quiserem, não precisam ficar presos ao seu passado, o Iron Maiden, no final das contas, não é mais uma banda dos anos 80, é uma banda de hoje, que ainda olha para o futuro, que ainda tem vontade de criar! CARA!!! Que bacana constatar isso numa banda tão clássica, principalmente para pessoas que como eu, não viveram os anos 80, mas que apesar disso estão vendo o Maiden construindo sua história mais de quarenta anos depois de sua fundação!




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