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Somos como o sonhador que sonha e então vive dentro do sonho


Nunca fui fã de Twin Peaks até este ano quando resolvi enfim assistir a série para poder acompanhar os acontecimentos da recentemente lançada terceira temporada e já considero a melhor série do ano e pessoalmente a melhor série que já assisti. David Lynch e Mark Frost, criadores da série são geniais e Lynch especialmente ao dirigir todos os espisódios desta terceira temporada como um enorme filme.

O que fascina em Twin Peaks é que por um lado a série é uma novela, tal como aquelas da globo ou ainda como a série Game of Thrones, há mocinhos e vilões, tramas e traições, dramas e romances, mistérios e reviravoltas. Por outro lado desafia padrões de narrativa ortodoxos com personagens estranhos, silêncios constrangedores e situações oníricas que fazem duvidar da noção de realidade. Twin Peaks é um obra de fantasia, terror, ficção científica, comédia, tudo ao mesmo tempo. Difícil de definir, mas fácil de amar.

A história que começa como uma noveleta de suspense policial onde o agente especial Dale Cooper do FBI vai à pequena cidade de Twin Peaks solucionar o assassinato de Laura Palmer, a garota mais popular do colégio, no maior clima de O Silêncio dos Inocentes, e acaba evoluindo para uma trama sobrenatural em sua segunda temporada e nessa terceira temporada alcança seu ápice numa clássica narrativa épica do bem contra o mal. Claro, que novamente Lynch vai deturpar toda a narrativa colocando o personagem principal preso dentro do próprio corpo com amnésia, enquanto o vilão caminha livre sobre os Estados Unidos, os personagens secundário ganham mais relevância e recebem o encargo de levar a história adiante, outras várias subtramas se desenvolvem em paralelo sendo que nem todas terão uma conclusão no final, de fato, muitas delas sequer precisarão de uma conclusão.

E, claro, há o episódio 8 que é um marco, uma enorme quebra na linha narrativa, um flashback em preto e branco de uma hora quase sem diálogos onde as mais diversas imagens vão surgindo na tela, todas loucas e belíssimas parecendo alternar entre realidade, ilusão e sonho ou pesadelo, informações preciosas são reveladas, mas não explicadas abrindo possibilidades para as mais diversas teorias.

Falando em teorias, ao final após nos levar ao longo de toda a narrativa e nos ludibriar com a ilusão de uma conclusão para série, Lynch inverte toda a lógica de novo e nos faz questionar a própria realidade do que ocorreu ao longo dessas três temporadas de Twin Peaks num final brilhante, mas que deixa aquela sensação de vazio no espectador, vazio que várias teorias pipocando na internet já estão tentando preencher.

É a questão que uma onírica Mônica Bellucci levanta em determinado momento da narrativa: "Somos como o sonhador que sonha e então vive dentro do sonho. Mas quem é o sonhador?". De fato, toda Twin Peaks parece um sonho, a quantidade de narrativas soltas e inconclusas, deslocadas da série que você vai encontrar nessa temporada parece reforçar ainda mais essa impressão. "Vivemos dentro de um sonho" diz Dale Cooper em determinado momento. Assistir Twin Peaks é isso, é como sonhar, nem tudo precisa ter uma explicação ou conclusão, mas é uma experiência que vale a pena ser vivida.

Se essa terceira temporada de Twin Peak foi o fechamento da carreira de David Lynch então ele o fez com chave de ouro.



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